A Bela que Dorme

Marco Bellocchio deveria ser um maestro. A música é tão importante em seus filmes que cenas simples se transformam em atos de uma sinfonia apenas pela maneira como o diretor utiliza a trilha sonora. A Bela que Dorme, como no gigantesco Vincere, tem sequências em que as composições assinadas por Carlo Crivelli parecem saltar na tela como um rolo compressor, esmagando todo o resto, como se o cineasta evocasse um estado de espírito elevado, muito acima da discussão sobre eutanásia que permeia o longa.

A Bela que Dorme tem como ponto de partida o caso real de Eluana Englaro, uma italiana que viveu 17 anos em estado vegetativo, até que sua família resolveu desligar os aparelhos que a mantinham viva. A decisão abriu um imenso debate sobre o tema no país. Debate que Bellocchio reacende no filme, uma pensata com múltiplas variáveis sobre o direito de interromper ou não a vida de alguém numa situação irreversível.

Apesar de ser o ponto de partida para a realização do filme, a figura de Eluana é apenas um fantasma onipresente na vida dos personagens, todos fictícios, criados pelo diretor. Sua história é contada no texto dos atores e pelas imagens de arquivo, o que reforça seu caráter simbólico e sua presença opressiva para os verdadeiros protagonistas do filme. Bellocchio prefere utilizar Eluana como maneira de dar movimento a diferentes tramas e pontos de vista diversos sobre o assunto. E nunca se interessa em dar uma palavra final.

O mosaico construído pelo diretor encontrou alguns bons defensores. O senador em crise de consciência vivido por Toni Servillo (Il Divo) é, de longe, o melhor e mais bem resolvido personagem do filme, seguido pelo médico interpretado pelo filho do diretor, Pier Giorgio Bellocchio. Ambos conseguem retratar a fragilidade e a solidão de pessoas que convivem com o problema de perto, mas de forma indireta. Homens que, em desespero silencioso, buscam redenção para a corrupção ética, em níveis variados, que faz parte de suas histórias.

Enquanto isso, Isabelle Huppert não entendeu o tom épico que Bellocchio imprime ao debate e se conforma em reprisar as caras e bocas de seus últimos vinte personagens. Este tom, proporcionado em grande parte pelo uso orquestrado da trilha sonora, eleva a discussão sobre a eutanásia a um nível tão superior que permite que Bellocchio se abstenha sobre a polêmica. O filme não termina como um relato ou uma provocação, mas como um ensaio sobre as diferentes formas de se entender o que é certo e o que não é.

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[La Bella Addormentata, Marco Bellocchio, 2012]

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