“Se acontece uma coisa e as pessoas não falam sobre ela, será que essa coisa realmente aconteceu?”. Há perguntas que esclarecem mais do que as próprias respostas. A dúvida de Victor, um dos personagens principais de A Era Atômica, diz muito sobre o filme, um daqueles tesouros escondidos. O objetivo do jovem ao lançar a questão para o amigo Rainer, mais do que a busca por uma resposta, traduz o estado de inconformismo e insatisfação do adolescente.

Uma inquietação que transforma a noite de sábado em que os protagonistas cruzam a cidade em busca de diversão numa jornada em que os dois rapazes parecem querer deixar para trás as histórias que carregam. Na primeira parada que fazem, numa boate, a diretora Héléna Klotz coloca os adolescentes numa espécie de estado de transe, promovido pela mistura de álcool e drogas, mas potencializado pelas melodias eletrônicas que fazem com que eles flutuem sobre suas existências.

Nessa imersão, eles assumem posturas-personagens, de que só são acordados quando confrontados pela realidade. Um tapa na cara, uma agressão, uma ameaça que põem os dois amigos de volta em seu mundo cotidiano, que desespera um e assusta o outro, mas que os move para dentro de uma experiência existencial de autoconhecimento e de descobrimento de suas ambições mais profundas.

O primeiro longa de ficção de Héléna Klotz é intenso, apesar de ter apenas 67 minutos. O filme, que ganhou o prêmio da Crítica Internacional na seção Panorama do Festival de Berlim, revela que a cineasta, filha do francês Nicolas Klotz, diretor de A Questão Humana, herdou do pai a mesma inquietação que empresta a seus personagens. A Era Atômica é como um “A Questão Humana Jr.”, em que as angústias dos personagens têm tamanho proporcional a sua pouca idade, mas não perdem em intensidade.

A melancolia que pontua o filme, vício de um cinema independente jovem que se espalha pelo mundo, ao contrário do que acontece com muitos de seus pares, é genuína. Os poemas que Rainer recita do nada durante seus diálogos com Victor, facilmente confundíveis com impostação ou puro exibicionismo, parecem ao mesmo tempo casar com a forma como Héléna conduz a narrativa e elevar as discussões a um nível muito mais complexo.

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[L’Âge Atomique, Héléna Klotz, 2012]

Texto originalmente publicado no Uol.

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