A Espuma dos Dias

Michel Gondry é um entusiasta da imagem. Esse é tanto o grande dom quanto o maior pecado de seus filmes. A obsessão plástica do diretor muitas vezes se sobrepõe ao conteúdo de seus trabalhos e o trailer de A Espuma dos Dias, seu novo longa, parecia indicar o mesmo caminho. A história com toques surreais parecia um desfile de escola de samba de cores, formas e personagens estranhos, mas com intenções poéticas, regra do cinema pop francês estrelado por Audrey Tautou, que aqui vive uma mulher ameaçada por uma orquídea que nasce dentro dela. As chances de repetir a experiência de Sonhando Acordado, filme que nunca encontra seus motivos, pareciam fartas, mas essa segunda adaptação para o cinema do livro do francês Boris Vian encontra um equilíbrio interessante, mesmo com tantas fragilidades.

No mundo imaginado por Vian, os personagens ganham pernas longas, andam em veículos-nuvens e dividem espaço com um rato. O maior acerto de Gondry talvez tenha sido fazer os atores viverem o filme como uma experiencia sensorial. Em vez de recorrer a efeitos digitais – que existem, mas numa escala bem pequena -, ele construiu cenários e objetos que dão forma ao sonho psicodélico do escritor. O cineasta utiliza truques de fotografia e montagem para criar seus experimentos, o que transforma A Espuma dos Dias em um filme que não é apenas visual, mas tátil, físico, palpável, que realmente cria um universo lúdico para que seus atores entrem em cena. Uma tática que o aproxima dos primeiros ilusionistas do cinema.

Embora Tautou apareça em todas as sinopses, o protagonista do filme é Romain Duris, inspirado, cuja interpretação remete a algumas comédias malucas dos anos 50 e 60. Ele faz Colin, um herdeiro que não trabalha e guarda todo o dinheiro num cofre, a que recorre para comprar as geringonças mecânicas que habitam seu apartamento e pagar as despesas de seu casamento. Seu melhor amigo é o cozinheiro particular, vivido por Omar Sy, de Intocáveis, totalmente integrado ao clima de anarquia que comanda o filme. Nesse cenário maluquinho, em que Jean-Paul Sartre ganha uma homenagem alegórica, Jean-Sol Partre, Gondry ensaia uma história de grandes e pequenas tristezas, mas com um humor melancólico que percorre todos os personagens. Se não dá conta do livro, o diretor parece ter encontrado uma maneira de traduzir essa história onírica. Ao ressaltar o fake, Gondry tornou a tradução desse universo retrô de ficção-científica um filme mais íntimo e menos afetado do que seus últimos trabalhos.

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[L’Écume des Jours, Michel Gondry, 2013]

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