A Fita Branca

A Fita Branca talvez seja o mais solene dos filmes de Michael Haneke. O trabalho mais clássico de um diretor que não abandona seu tema favorito: a capacidade do homem de ser cruel. Muitas vezes, suas aventuras por este terreno me pareceram gratuitas, forçadas, pouco naturais, mas neste novo filme elas ganham um acabamento refinado, principalmente por causa de seu modelo modelo retrô. Haneke fez um filme num preto-e-branco quase glacial, que nem a projeção digital consegue estragar, e assume um narrador – num voice over que se justifica como há muito tempo não acontecia num filme.

Titubeante, o narrador alerta no começo do filme sobre sua falta de certezas sobre o que é ou não verdade no que vai contar para o espectador. A Fita Branca começa assim, duvidando de si mesmo. O diretor costura seu filme, não apenas como uma investigação do que era a Europa pré-Nazista, como fizeram questão de alardear, mas como uma alegoria do que os sistemas patriarcais, os regimes autoritários e o fanatismo religioso podem provocar na formação do indivíduo.

A essência do filme poderia ser sintetizada em uma única cena, em que o pai pastor, interpretado pelo ótimo Burghart Klaußner, “esmaga” a educação sexual de seu filho, o surpreendente Leonard Proxauf, com um discurso castrador que se transformou num dos momentos mais aterrorizantes do ano. O austríaco foi felicíssimo na escolha do elenco, sobretudo as crianças, quase todas excelentes. Ele usa sua habilidade para gerenciar climas e tensões, construindo o filme como um thriller de terror psicológico que oferece mais perguntas do que respostas.

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[Das Weiße Band, Michael Haneke, 2009]

Comentários

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6 thoughts on “A Fita Branca”

  1. Retirando os falsos intelectualismos que descobrem densidade no filme, o mesmo é arrastado, lento, chato, desgastante e tolo (além de tremendamente escuro, o que não tem nada com o estilo “dark”). Fica para os intelectóides a tarefa de achar algo de útil nessa gravação alemã de segunda relacionando-o ao nazismo, ao facismo, à juventude nazista e outras tolices.

  2. Ricardo Wagner errou de cinema. Ele queria ver “Transformers, a vingança dos derrotados”. Mas tem de assistir dublado, senão ele vai achar que ler a legenda é coisa de intelectual…

  3. Gosto de algo que, como diz ali em cima, oferece mais perguntas que respostas. O filme me trouxe esta sugestao. Para alem disso, reporta o que vejo na atualidade: a violencia na relacao adultos – adolescentes – criancas e a permissao para a expressao dela a favor da manutencao da familia, tradicao e propriedade. Bom o susto de ver o presente tao perto do passado!

  4. Filme denso, carregado de forma – mas, despido de essência. Creio que a essência somos nós que daremos. Particularmente, não vejo referencia direta ao nazismo – vejo, entretanto, muito mais que isso.
    O filme trata sobre o ciclo vicioso que é a busca da perfeição em meio aos defeitos humanos. E esta mesma busca pela perfeição é um defeito humano – e, ao mesmo tempo, uma das maiores virtudes.
    Virtude, pois nos fazer agir socialmente, nos mobiliza.
    O grande problema, é que pela própria natureza torpe, acabamos tornando essa mobilização totalmente deturpada – resultando, inclusive, na violência ou violação do próximo.
    O nazismo nada mais é do que uma consequencia disso, cujo resultado foi o holocausto.

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