A Hospedeira

Para fruir A Hospedeira como o projeto merece, é preciso um pouco de boa vontade. É fácil encontrar semelhanças de temática e formato com a Saga Crepúsculo, a obra mais famosa e pouco requintada da escritora Stephenie Meyer, e é mais fácil ainda apontar reducionismos, simplificações e maneirismos na história sobre um mundo distópico em que uma raça alienígena assume o controle do planeta, roubando literalmente os corpos dos habitantes da Terra. O livro da escritora e o filme baseado nele têm muitas falhas e quase nenhum refinamento, mas esse espírito meio amador é o que ajuda a dar charme à saga da protagonista Peregrina.

O diretor Andrew Niccol já tinha no currículo duas ficções-científicas – Gattaca e O Preço do Amanhã -, ambas ambientadas em sociedades distópicas. Ele assume a natureza de lado B do projeto, recorre a seu cardápio de influências nesse terreno e transforma o filme numa releitura de longas baratos que invadiram o cinema, sobretudo na década de 70. No cozidão de Niccol, atores com poder de interpretação limitado e uma direção de arte kitsch que inclui cenários nitidamente artificiais e um visual asséptico para os invasores alienígenas.

A trama de A Hospedeira funciona na base da colagem: Meyer roubou os alienígenas de Guerra do Mundos, de H.G. Wells, e deu a eles o poder de ocupar corpos alheios como nos quatro filmes inspirados em The Body Snatcher, de Jack Finney, guardando ainda ecos da troca de identidades da série V – A Batalha Final. Diane Kruger topa a brincadeira e incorpora uma alien de coração gélido. Esses elementos já garantiriam a condição de guilty pleasure para o filme, mas a autora ainda oferece um delicioso complemento a essa homenagem a um dos subgêneros mais divertidos da ficção-científica: ela coloca invasora e hospedeira em conflito.

As cenas em que Melanie se revolta contra Wanda (apelido para Wanderer, Peregrina no Brasil) são de um humor tão involuntário quanto hilariante. Saoirse Ronan, geralmente uma ótima atriz, faz caras e bocas gloriaperezianas para dar conta da barbaridade do texto de novela das seis – além de ter que conversar consigo mesma. Mas o que poderia depor contra o filme só faz aumentar seu charme de subproduto. Um dos momentos mais divertidos é quando Jared, personagem de Max Irons (filho de Jeremy Irons), explica como teve certeza de que Melanie estava viva no corpo possuído por Wanda.

Por sinal, Stephenie Meyer sabe bem qual é seu público-alvo, então, repete a fórmula da Saga Crepúsculo com um triângulo (ou quadrilátero) amoroso adolescente, que é a coisa mais desinteressante de um filme que merecia uma resolução melhor. Com a mão pesada da autora para cenas dramáticas, a natureza de sua história convence apenas como diversão rasteira. Nem a presença de William Hurt, muito bem como o tio Jebediah, consegue dar dignidade ao filme. Ainda bem. A Hospedeira merece ser visto como realmente é: uma grande e deliciosa bobagem pós-apocalíptica.

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[The Host, Andrew Niccol, 2013]

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