Boris Barnet

O cinema  silencioso soviético entrou pra história resumido às produções grandiosas de Sergei Eisenstein, Vsevolod Pudovkin e Aleksandr Dovzhenko. Nomes que revolucionaram a narrativa cinematográfica criando obras monumentais que retratavam as revoluções populares na União Soviética, servindo como instrumento de propaganda do regime. Todo o cinema produzido nos anos 20 estava impregnado pelos preceitos stalinistas, mas além de relatos históricos como Encouraçado Potemkin, também foram realizados filmes que emulavam gêneros clássicos e que retratavam o cotidiano nas repúblicas soviéticas.

Os longas de Boris Barnet só foram redescobertos nos anos 70. O diretor se interessava muito mais nas histórias do dia-a-dia de personagens comuns do que na encenação de grandes momentos da história do país. A Menina com o Chapéu é um filme singular. De um lado reproduz as regras da comédia romântica, elegendo uma mocinha trabalhadora como protagonista e um encontro ao acaso como linha narrativa. Do outro, reflete a ideologia socialista de comportamento, honestidade e papel social.

A heroína é uma jovem que mora e trabalha com o avô numa confecção artesanal de chapéus, um modelo de virtude. Ela viaja todos os dias para Moscou para vender os produtos. No meio do caminho, esbarra com um homem que não tem onde morar. Está instalada a proposta: deve a mocinha ajudar ou não quem está precisando?  O elenco é um achado: uma lindíssima Anna Stern interpreta a personagem-título mais parecida do que nunca das heroínas do filmes americanos, enquanto Ivan Koval-Samborsky faz um grandalhão bobo de coração mole. Um casal perfeito.

Barnet se revela um feminista: toda a ação parte da protagonista. É ela que sustenta o avô, que viaja sozinha para a cidade grande, que resiste às investidas de pretendentes, que enfrenta o casal de burgueses, o mais perto que o filme tem de vilões, para dar um lar para o “namorado”. E o mais importante: é ela que dá em cima. A história é simples, mas o diretor não relaxa na criação de uma linguagem visual para o filme, que muitas vezes conversa com o cinema soviético mais celebrado. Na cena em que a protagonista tenta conquistar o amado respondendo a uma proposta que nunca foi feita por ele, Barnet, refletindo o humor presente no filme todo, alterna rapidamente o foco para o rosto de cada um dos personagens, dando novas dimensões a uma tensão que quase não existia.

A Menina com o Chapéu EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Devushka s korobkoy, Boris Barnet, 1927]

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