A Mulher da Areia

Niki Jumpei é um entomologista, um homem que estuda insetos. Ele vai a uma região de dunas na caça por uma espécie nova. Niki quer fama e notoriedade. Envolvido com suas descobertas, ele perde o último ônibus de volta para casa. Encontra um morador da área, bastante afastada das grandes cidades. Este oferece um pouso para o cientista. A casa de uma viúva, que fica embaixo de uma espécie de penhasco de areia. É aí que A Mulher da Areia se transforma num filme de terror. Não o horror propriamente dito, mas num grande exercício de terror psicológico, onde a impotência diante de um opressor inatingível é um golpe de máxima crueldade.

O longa de Hiroshi Teshigahara pode ser encarado de inúmeras formas, principalmente por causa de suas figuras de linguagem, mas o diretor arquiteta tudo de maneira que o filme funciona tanto como um estudo do comportamento humano quanto como um thriller com cara de filme de arte. O texto, adaptado para o cinema pelo autor da novela em que se baseia, Kôbô Abe, transporta tanto protagonista, vivido por Eiji Okada de Hiroshima Mon Amour, quanto seus carrascos para uma espécie de ser humano em estado bruto, um privado de sua liberdade, lutando por sua sobrevivência; os outros, afastados de conceitos da civilização, homens primários, basicamente fazendo o mesmo.

A caracterização destes últimos na cena que muda os rumos do filme é assustadora. Máscaras, armas e vestes rudes evocam um barbarismo impensado na época em que vivemos, do qual não há como saber o que se esperar. Nesse ponto do filme, Teshigahara atinge o ápice de seu controle sobre o projeto, coordenando atuações, música e câmera como se estivesse no comando de uma orquestra macabra. É uma vitória do instinto sobre a razão, duelo que está na espinha dorsal do longa e do qual o protagonista tenta escapar. A prisão de areia de Niki Jumpei, fotografada com uma beleza rara, é um dos cárceres mais horrendos da história do cinema.

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[Suna no Onna, Hiroshi Teshigahara, 1964]

Comentários

comentários

7 thoughts on “A Mulher da Areia”

  1. Estava surfando aqui e cai no seu site. Como este é o post mais recente, gostaria de fazer uma sugestão: não dá pra colocar uma barrinha de busca? Gostaria de ver sobre que filmes já foi falado, mas ficar catando nos arquivos é um saco.
    Abraço, cara.

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