Assistir a este filme me fez pensar sobre o que determina a criação do suspense no cinema. Mais especificamente em como tudo pode criar suspense. O suspense pode surgir de movimentos de câmera, de enquadramentos. Pode ser sugerido pela montagem, estabelecido pela música, determinado pelos cenários. Tudo pode ser origem para o medo. Durante muitos bons minutos, em Abismo do Medo, sem se recorrer ao sobrenatural ou a psicopatas, temos suspense genuíno, quase terror.

Tudo causado pelo choque do homem com o ambiente, que ganhou um tratamento assustador do roteiro e da direção. O medo é sugerido pela fotografia, pela trilha, pela montagem, pelos cenários; é um trabalho exemplar de transformação do espaço em que se desenvolve a trama no motor do susto. A sensação física é poderosa: o filme é claustrofóbico; o efeito, brutal. Mesmo quando a “história” propriamente dita começa a acontecer, não há decréscimo na capacidade que o filme de Neil Marshall tem de mexer fisicamente com o espectador.

Os detratores do filme provavelmente vão questionar a transformação das mulheres em soldados em campo de batalha – sim, num filme inglês, as seis personagens principais são feitas por mulheres – ou tentar ridicularizar a sub-trama de traição que o filme lança e que é realmente dispensável. Mas, digo e repito, fixar alguma avaliação sobre o filme nisso é, no mínimo, reducionista. Abismo do Medo não é um filme para ser analisado ou para gerar discussão porque seu imenso mérito é quase primitivo, lida com medo ancestral. É um filme para fazer você tremer na cadeira do cinema. E é o melhor do tipo que eu vi em muito, muito tempo. Conselho: leia o mínimo possível sobre o filme e vá sem medo de ter medo.

Abismo do Medo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Descent, Neil Marshall, 2006]

Comentários

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13 thoughts on “Abismo do Medo”

  1. Spoilers abaixo!

    Chico, concordo com quase tudo que você escreveu. Só acho que, quando os monstros branquelos entram em cena, de uma forma extremamente abrupta, o filme desaba feio. Mesmo. Eu tava com a maior boa vontade, gosto da primeira meia hora, sou bonzinho pacas com filmes de horror, mas acho que esse aí tem mais hype que qualquer coisa.

  2. Spoilers

    O diretor leva tão bem o filme no início que a caverna poderia estar VAZIA que talvez tudo seria assustador da mesma forma.

    Aliás, eu não achei ruim a trama sobre traição das amigas não. E acho que o diretor quer mesmo é mostrar como uma situação de horror puxa reações extremas das personagens (é o momento do “ou tudo ou nada”) e sobre como as situações mais assustadoras da trama já existiam antes de as moçoilas entrarem na caverna.

  3. O medo que comanda o filme é primitivo, medo do desconhecido, a câmera nos leva para esta caverna como se estivessemos presentes, mas o melhor ainda é o perfil das personagens, não são clichês ambulantes, todas são apresentadas de maneira acertada criando dinãmica entre elas.

  4. A reviravolta final, com as duas personagens, não me agradou muito. Entendo quando você fala das reações extremas, mas achei a cena exagerada.

    Paulo, concordo com você. As personagens são verossímeis e, se há clichês, eles são muito bem trabalhados. Na verdade, acho que o filme escapa muito bem dos lugares comuns de uma maneira geral.

  5. Belíssimo filme mesmo, Chico. Acabei de postar uma crítica e vai mais ou menos na mesma linha do teu texto. Acho que o grande mérito do filme é o trabalho com sombras e, principalmente, com o som (utilizado com primazia), deixando para os limites do enquadramento (mais até do que para o extra-campo) o lugar para a projeção de nossos medos. Um filme verdadeiramente assustador…

  6. Pelamordedeus, acreditei nas boas críticas e fui ver esse filme. E não é que acaba se tornando filme de monstrinho? PQP, filme de monstrinho! Ficasse ele com a ótima tensão claustrofóbica que existia, melhor. Mas partiu para o lugar comum de criar monstrinhos predadores. Foi ao abismo.

  7. Achei o subplot de traição necessário, pois é um elemento a mais para dar credibilidade à transformação da “heroína” do filme naquela criatura quase selvagem do final e levar a um final interessante e incomum dentro dos filmes do gênero. Muito divertido o filme!

  8. Oi Chico! Não acha que, frente ao atual panorama – em geral medíocre – dos filmes de terror/suspense, há uma supervalorização de produções que, no máximo, cumprem bem o seu “dever de casa”? Como você, percebo diversas qualidades nesse “Abismo”, mas sinto que falta ousar mais na forma e, principalmente, no conteúdo. A gramática do gênero já serviu de palco privilegiado para as insubmissões políticas de grandes diretores como Carpenter, Romero e Landis. O próprio Neil Marshall mostra que conhece do assunto, ao citar a clássica cena do “zumbi” submerso (lá do “Zombie” de Lucio Fulci). Agora, será demais pedir desses diretores novatos um pouquinho mais de rebeldia?

  9. pois é, nossos gostos para terror batem de frente, e muito. eu achei esse filme meio chato e sem porquê, mas por outro lado tenho amado sem exceção nenhuma todos os orientais q têm desembarcado aqui no Brasil (e q pelo q tu tem falado, tu não tem gostado muito, né?).

  10. Fer, acho que eles se esgotaram. Eles, os orientais.

    Julio, sinceramente acho que este filme é clássico. Traz um terror à moda antiga, mais verdadeiro, e não sujeito a truques digitais ou comédia gratuita.

    Ivan, eu nem acho o subplot ruim, mas ele é menor ao meu ver. Acho que a prpopria situação já determinaria a transformação das personagens.

    Marcelo, acho que classificar o filme do jeito que vc classificou foi injusto e não dá nenhuma pista sobre o filme.

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