Amarcord

O tempo passa. As coisas passam. E aos poucos encontram seus devidos lugares no universo paralelo das memórias. Universo regido pela não linearidade e pela desconstrução. As memórias se acumulam, se mesclam, conversam entre si e se redefinem. Os fatos passam a existir isolados ou ligados a outros. Viram seqüências inteiras, imagens de um frame só ou fragmentos desconexos. O universo da memória, sobretudo da mais distante, é regido pelo caos e mergulhar nele é reconstruir uma história, reconstruir a história.

Federico Fellini foi um dos maiores nomes do cinema. Fez grandes filmes onde o que há dentro dos personagens se confronta com o universo real. Construiu a beleza a partir da simplicidade ou da elaboração. Ergueu estátuas aos deuses da plástica e da narrativa. Mas um dia decidiu falar da memória. Olhar pra trás e juntar os fragmentos que construíam seu passado. Decidiu ser nostálgico. Homem e mágico. E fez um dos melhores filmes da história do cinema.

Amarcord é um rápido e inesquecível passeio pelo que o cineasta guardava escondido. Um mergulho na sua nostalgia da família, dos amigos, da cidade natal… e, exatamente por isso, um filme inesquecível. Poesia nas pequenas coisas: no vôo de um pavão num dia de neve, no grito de um louco em cima de uma árvore, na punheta coletiva de um grupo de amigos dentro de um carro. Com Amarcord, o cinema conta os mistérios da adolescência sem contar necessariamente uma história.

O jovem Titta é quase mais um coadjuvante que um protagonista. Sua função é muito mais apresentar as personagens e história do passado de um homem que contar a sua própria história. É a vida passando… as coisas ficando… Gradisca procurando um homem. Volpina procurando um homem. Um rapaz procurando nada… e encontrando a vida. Que aparece nos enormes peitos da comerciante ou no imenso navio que faz uma cidade chorar. Tudo enorme e imenso, mas também muito pequeno… mínimo, ínfimo… Tão pouco que se perdeu no tempo… que só restaram fragmentos. Tão pouco que conquistou o mundo.

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[Amarcord, Federico Fellini, 1973]

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