A carreira de Xuxa Meneghel como Rainha dos Baixinhos começou bem antes do Clube da Criança, na TV Manchete, ou dos filmes como os Trapalhões. O ano era 1982 e a loirinha, cujos cabelos à época ainda não haviam sofrido mutação secundária para a platina, foi a estrela de dois filmes. Um era O Fuscão Preto, em que dividia a cena com o cantor Almir Rogério, criador do maior clássico da música brega brasileira. O segundo, Amor, Estranho Amor, em que foi dirigida por um cineasta consagrado: Walter Hugo Khouri, especialista em dramas psicológicos lotados de sexo. Este foi o que mais ficou famoso porque é nele que Xuxa interpreta uma catarinense safadinha, que seduz sem o menor pudor um moleque de 12 anos.

Curiosamente, pelo fato de ter ficado associado à Xuxa interpretando uma pedófila, o filme ganhou uma fama que não corresponde ao material que oferece. Como todo o cinema de Khouri, Amor, Estranho Amor tem muitas cenas de sexo, muita nudez gratuita, mas, pondo os pingos nos is, trata-se de um bom filme. Então, Xuxa não tinha nada que ter vergonha dele só porque sua personagem é safadinha. A moça comprou os direitos do filme, conseguiu recolher uma porrada de cópias das locadoras. Fez o diabo. Teria muito mais utilidade mandar destruir Super Xuxa contra o Baixo Astral ou Xuxa Requebra.

Tudo começa com Walter Forster lembrando do passado. O cenário é uma mansão onde funciona um puteiro de luxo, comandado pela personagem da ótima Iris Bruzzi. Entre as dezenas de beldades que moram no lugar estão Vera Fischer, bastante correta no filme, Matilde Mastrangi e Xuxa Menenghel, uma novata que havia acabado de chegar ao local e está animada porque vai ser o presente numa festa. Ambientado nos anos 30, o filme tem um cunho político fortíssimo, com os personagens de Tarcísio Meira e Mauro Mendonça ensaiando uma aliança política entre Minas Gerais e São Paulo para chegar à presidência. Rubens Ewald Filho é um dos assessores de Tarcísio, que conseguiu driblar a caricatura de sempre e está num de seus melhores papéis.

Por sinal, a primeira cena de sexo entre seu personagem e o de Vera Fischer é sensacional. Muito bem filmada, ousada, mostra os dois atores num intercâmbio que deve ter feito Glória Menezes ficar roxa. Mas apesar desta cena ter sido a mais bem resolvida, o verdadeiro garanhão do filme é o pequeno Marcelo Ribeiro. A chegada de seu personagem à mansão provocou o delírio das moças que habitam a casa. Todas ficaram assanhadas com o moleque. O filme, por sinal, trata deste tema, iniciação sexual de um garoto com mulheres adultas, sedução de menores, sem o menor pudor, coisa que hoje provavelmente não seria muito fácil.

Na verdade, a participação de Xuxa no filme ficou mais metabolizada por causa da persona pública que ela assumiu anos depois. Porque ela não faz muito mais do que Matilde Mastrangi ou a própria Vera Fischer. A primeira a atacar o menino é Matilde Mastrangi, que, no auge de sua forma, abre seu robe e mostra o corpão. Numa cena mais pra frente, a hoje senhora Oscar Magrini parte mesmo pra cima do menino com carinhos e beijos e só não consuma o ato porque alguém aparece para atrapalhar. Xuxa surge numa cena marcante. Quando o menino é levado para o sótão, dá de cara com a moça, que está fazendo a prova de uma fantasia, com os seios à mostra. Ela sorri para ele.

O momento que fez a festa é quando o moleque volta para o lugar onde encontrou a personagem de Xuxa, que interpreta pior do que um prego, e ela continua lá. Ela o convida para se aprochegar e dar uma apertadinha no seu seio. O menino fica lá com a buzina de Xuxa na mão e ela delira. Um sucesso. As três mulheres que estão acertando a roupa da moça não fazem nada além de cara feia (ou cara safada, dependendo da personagem). A cena demooora e só é interrompida quando mais uma vez o moleque é interrompido. Mas Xuxa, vocês sabem, é persistente, no terço final do filme, ela invade os aposentos do menino, o beija e faz o que bem entende. Frenesi. Isso até que Vera Fischer aparece para dar umas bolachas na cara dela.

Vera interpreta a mãe do menino. Numa cena anterior, o moleque, safadinho, já tinha espiado Vera tomando banho. Depois que o tira das garras de Xuxa, mãe e filho resolvem se aproximar numa cena que lembra a de Marília Pêra com o menino no colo em Pixote. Mas o que era maternal no filme de Babenco ultrapassa esse limite e adentra na área do sensual e do sexual. Khouri filma a cena como o amor máximo entre mãe e filho antes de uma inevitável separação. De certa forma, dá classe ao que muitos tratariam como putaria simples. É um filme bastante ousado, delicado, bastante questionável moralmente, mas um filme que merece ser visto.

Deixa, Xuxa, vai.

Amor Estranho Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Amor Estranho Amor, Walter Hugo Khouri, 1982]

P.S.: a Xuxa não só não deixou como uma hora depois de eu postar pela primeira vez este texto as fotos foram deletadas do meu Flickr e minha antiga conta terminou indo pro beleléu, sumindo com várias outras imagens deste blogue. Troquei as fotos deste post pra gente não ficar sem ver a Rainha dos Baixinhos.

Comentários

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8 thoughts on “Amor, Estranho Amor”

  1. Ainda bem que tem recursos para processar todo o planeta!! O que era um filme de cunho político passou pra putaria pura e simples na cabecinhA da loira… depois reclama. Texto correto e bem colocado, tio Chico! Um primor, como sempre.

  2. Ainda bem que encontrei alguém que vê além…Chico..já era fã. Fiquei mais. E ae falam em pedófilos..nunca puvi nada sobre Antônio Fagundes em A Menuna fo lado. Nunca foi taxado…e a garota em questão tinha apenas catorze anos.

  3. Vi este filme logo quando a dona xuxa começou a polêmica por ser ‘globete’ e ‘rainha dos baixinhos’… Walter Hugo Khoury nunca fez minha cabeça mas o filme tem boas interpretações, sim, e a dona xuxa deveria ter pensado ANTES de trabalhar, não depois. Só tenho uma grande dúvida: o casarão que serve de cenário parece a Casa Das Rosas na Av. Paulista e que, mais tarde, se transformou em Centro Cultural Itaú. Onde fica o casarão do filme?

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