Amor, Plástico e Barulho

A frustração é a premissa – de história e de cinema – de vários filmes recentes. Um dos mais originais deles é Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro. A pernambucana, que estreia em ficções, invade a gigantesca cena da música brega no Recife, criando um espécie de versão “cultura popular” e distorcida de A Malvada, onde uma jovem dançarina não mede esforços para chegar à condição de estrela; condição que ela acredita que sua musa inspiradora já alcançou. A musa em questão é interpretada por Maeve Jinkings, estrela de O Som ao Redor, cuja determinação a transformou numa das rainhas desta cena. A personagem é riquíssima e já coloca a atriz entre as melhores do ano: uma mulher que chega ao trono de seu universo para se descobrir sozinha, vazia, isolada.

A frustração aparece tanto na tentativa da aspirante quanto na desilusão da veterana – e Renata a utiliza também como método de cinema: para traduzir a efemeridade desse universo, a diretora arquiteta uma série de situações para, na Hora H, frustrar as expectativas e não permitir catarses. O espectador não tem chance de ver o “nascimento” da estrela, mas em contrapartida é bombardeado por uma série de imagens de YouTube, como se a cineasta dissesse que ali está o futuro dela, dialogando diretamente com o cinema pernambucano recente que contrapõe o homem, a cidade e a tecnologia em seu crescimento desenfreado. Renata Pinheiro, além de cineasta, é artista plástica e sua versão desse Recife elétrico é cheia de cores e luzes, como numa versão nordestina de um filme de Wong Kar-Wai. Fotografia e direção de arte estão afinadas e servem de palco para abrigar os dramas das duas protagonistas.

O duelo de interpretações é excepcional, principalmente porque a diretora contrapõe os sentimentos diferentes (inveja, admiração) que uma sente pela outra, evitando maniqueísmo. Nada é preto no branco. Tanto Nash Laila, protagonista de Deserto Feliz, um talento nato, quanto Maeve Jinkings, uma das melhores atrizes brasileiras do momento, estão excelentes em seus papeis. Uma das cenas mais fortes do filme é quando Maeve sobe num palco de um galpão, pobre e vazio, e canta numa versão lenta e a capella “Chupa que é de uva”. Só uma grande atriz para encontrar o equilíbrio entre a melancolia de uma personagem triste com a força de uma mulher que tenta sustentar aquilo que conseguiu.

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[Amor, Plástico e Barulho, Renata Pinheiro, 2013]

Renata Pinheiro

entrevista com Maeve Jinkings

Você sabia que essa cena da música brega no Recife tivesse essa dimensão?

Sabia que havia uma forte cena do brega em Recife, porém não conhecia o brega contemporaneo com influencias tão fortes do funk, dos mcs, que é mais agressivo. No inicio fiquei um pouco chocada, o brega que eu conhecia dos tempos de quando vivi em Belem do Pará, super romantico, está mais pra “baile da saudade”…

Sua personagem é a grande diva dessa cena. Que referências você usou para compor a personagem?

Fui a vários shows de grandes estrelas do brega local como Musa do Calypso, Banda Kitara e Michelle Melo. Mas prestei ainda mais atenção a cantoras de bandas menores, com shows mais simplórios que muitas vezes abriam o show das bandas mais famosas. Me interessava a foma como se comportavam essas cantoras menos “bem sucedidas”. Como todo showbusiness, o sucesso nesse meio é muito fugaz, você precisa produzir novidade constantemente ou está decadente. Minha personagem está nesse lugar, enquanto lida com a propria condição de mulher, perdendo a infancia da filha que é criada pela avó. Ou seja, o tempo é muito opressor pra ela.
No ensaios, é importante identificar os proprios preconceitos: sendo de um genero popular super erotizado, eu as imaginava mais vulgares, no entanto a maioria delas é incrivelmente classuda. São verdadeiras rainhas. Michelle Melo me disse que o brega a ensinou a ser mulher, e de alguma forma isso afetou a mim também. Tenho a sensação de que saí do filme um pouco mais feminina.

O filme parece uma versão “cultura popular” de “A Malvada”, com a jovem querendo o lugar da veterana. Você reconhece a semelhança?

Sim, com certeza. nossa preparadora Amanda Gabriel apontou essa semelhança, falamos bastante a respeito e cheguei a rever o filme naquela época. Foi certamente parte de minha construção. Mas ainda que reconheça a semelhança, a própria Renata nunca citou o filme durante os ensaios, ela dizia que essas mulheres podem ser a mesma pessoa em momentos diferentes da vida. E creio que isso foi fundametal pra que eu e Nash mantivessemos a dualidade amor/repulsa entre as personagens.

“Amor, Plástico e Barulho” evita catarses, inclusive catarses musicais com poucas cenas das apresentações da banda. Isso é intencional?

Certamente a Renata responderia isso com mais propriedade. Mas meu ponto de vista é que o filme está muito mais interessado na relação entre essas duas mulheres, em suas expectativas de sucesso, amor e derrota. O brega é quase um pano de fundo pra tratar da humanidade delas. Isso é o que mais admiro no filme… é onde me toca. Vou te dar um exemplo: a cena onde canto “chupa que é de uva” precisava ser um detonador de uma curva pra personagem da Nash. Era importante que eu a impressionasse, e pensei muito no que significava isso. Um dia assisti um video de Billie Holliday cantando “Strange Fruit” com uma dor tremenda, um olhar cortante… Era isso! “Como se canta a dor?”, pensei. Essas mulheres se conectam não simplesmente pela disputa, mas porque compreendem a dor e o prazer de forma parecida. No dia de filmar, em minha auto-preparacão da cena, escutei “Strange Fruit” em looping, na voz de Nina Simone. E me conectei com a personagem da Nash: de cima do palco olhei pra ela, nos olhamos profundamente. Aquilo me comoveu, me trouxe a dimensão da solidão dessas mulheres no palco lutando pra se manter ali… elas apenas queriam ser amadas. Como todos nós.

Uma diretora e duas atrizes nas personagens principais. “Amor, Plástico e Barulho” é um filme feminino. Como isso funciona no set? O que muda em relação ao que você já fez antes?

Penso que muda a profundidade com que se olha a mulher, isso é natural, num set dominado por mulheres. Jaqueline Carvalho, a personagem de Amor Plastico e Barulho, foi a personagem mais complexa que pude desenvolver até aquele momento. Depois disso filmei “Estatua” com Gabriela Almeida e interpretei Isabel, outra personagem muito complexa . Essas experiencias foram tão importantes, que passei a refletir muito sobre a forma como se retrata a mulher no cinema. São olhares muito generosos sobre a mulher. É claro que um homem pode ir fundo na alma de uma personagem feminina, mas não é comum.

Mais um filme pernambucano no seu currículo. Você já virou pernambucana? Falando sério, depois de “O Som ao Redor”, já tivemos “Tatuagem”, “Eles Voltam”, só pra citar alguns, e agora “Amor, Plástico e Barulho” chegando aos cinemas brasileiros com grande destaque. É uma invasão?

Tenho a sensação de que cheguei em Recife e já era pernambucana. E trabalhar nesse espaço afetivo, com amigos, é a melhor maneira de mergulhar num trabalho sem rede de segurança. Não sei se é uma invasão dos cinemas brasileiros, mas talvez seja uma revolução na minha vida.

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