Amor

O cinema que Michael Haneke comete desde que dirigiu seu primeiro filme é um cinema que tem a intenção clara de, abrandando os termos, provocar espectador. O objetivo final parece geralmente ser a reação extrema de quem assiste a seus filmes, que de uma maneira ou de outra sempre tratam de como as pessoas lidam com a violência, em seus mais variados estados e possibilidades. O exercício de Haneke enquanto cineasta depende fundamentalmente do quanto o espectador se sente provocado (atacado, revoltado ou representado, vingado) pelas situações extremas em que ele insere os personagens em sua obra. Ele se alimenta disso. Por isso, seus filmes despertam reações tão diversas.

O fato é que, ao longo de sua carreira, Haneke estilizou sua arte. A violência em seus últimos filmes ficou mais, digamos, elegante. Talvez resultado de um amadurecimento seu como diretor de cinema (como aconteceu com David Cronenberg e Pedro Almodóvar, nomes que mantiveram suas características e universos em filmes mais refinados). Talvez como estratégia. Amor é um daqueles filmes que se colocam disponíveis para plateias maiores. A história de amor entre os personagens octogenários de Jean-Louis Trintignant e Emmnuelle Riva atrai uma fauna variada de espectadores, de cinéfilos ávidos por resgatar grandes astros europeus a senhoras interessadas em ver um grande romance retratado nas telas.

Nenhum pecado até aí. Amor é destinado a um público mais amplo, que pode se emocionar com o drama relatado no filme e/ou com as belas interpretações de um par de grandes atores (por sinal, embora o destaque tenha ido para Riva, o grande em cena é Trintignant). O que incomoda é como o detalhamento cirúrgico da rotina do casal, sobretudo depois do problema de saúde sofrido pela personagem de esposa, adota um modelo de cinema tão comum, sobretudo na Europa dos últimos anos, que o filme não parece muito diferente (nem melhor ou pior dirigido) do que alguns cineastas romenos têm feito com menos alarde por aí.

A fórmula é de crueldade extrema, mas o tratamento gélido trata de oferecer dignidade à história e à maneira como a história está sendo contada. A personagem de Isabelle Huppert, a filha distante, em mais uma reprise de seus cacoetes, é desnecessário. Parece servir apenas para metabolizar o sofrimento. Haneke, mais uma vez, ainda que disfarce isso neste modelo de filme, tortura o espectador, enclausurado num apartamento, isolado entre quatro paredes, acompanhando velhinhos sofrerem. Amor não oferece a violência gratuita da maior partes dos filmes anteriores do cineasta, mas é tão manipulador quanto, sempre sobre a égide de mexer em temas delicados de forma “crua”.

Mesmo com tantos senões, Amor é um bom filme. De verdade. Haneke é um exímio manipulador e um esteta competente e os atores entregam performances bonitas. A questão, tratando de enfatizar, não passa por uma reclamação contra o esquematismo ou o cálculo milimétrico do longa do diretor. Não dá para reclamar de uma característica que o acompanha desde sempre. O fato é que quem se vê imunizado contra as iscas emocionais do filme – e para quem compra o distanciamento que Amor prega, isso não é tão complicado – precisa se agarrar a detalhes para não achar tudo bem feito, mas banal.

Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Amour, Michael Haneke, 2012]

Comentários

comentários

14 thoughts on “Amor”

  1. Querido Chico, gosto de ler seu blog e respeito bastante suas resenhas.
    O que você escreveu sobre “Amor”, no entanto, me pareceu superficial sobre a obra e condescendente com o público. Tento explicar meu ponto de vista:
    Não creio que haja um o emprego de uma “fórmula de crueldade extrema” para se manipular a emoção do público. O exemplo que você cita para se fundamentar – o filme quase inteiro se passar no apartamento do casal – não se qualifica como “tortura” do público. Ademais, caso houvesse mesmo um método de crueldade extrema, os dois primeiros parágrafos de sua resenha seriam contraditórios, já que argumentam que o filme estaria inserido num contexto de auto refinamento da filmografia do diretor.
    Na verdade, o que você chama de crueldade extrema – o acompanhamento da decrepitude causada por uma doença da velhice – não passa de um fato natural, cotidiano. Por esta razão é que entendo que sua resenha é condescendente com o público que, teoricamente: ou se emociona ( se revolta, se choca) pela exacerbação da dor; ou, não enxergando tal exacerbação, tem dificuldade para não considerar o filme uma banalidade bem executada.
    A resenha, portanto, para mim, deixa de se aprofundar no tema proposto de forma muito clara pelo filme: o ato de amar, com sua dificuldade e sua humanidade. O suposto esquematismo do filme talvez o tenha incomodado porque o diretor me parece ter uma clareza muito grande do que ele quer dizer sobre o valor da vida humana. Pra mim, é muito simbólico que um filme que trate de eutanásia não gere qualquer polêmica sobre tal prática (ao contrário do que ocorre na vida real). Isto só pode acontecer porque Haneke não deixa qualquer dúvida sobre a motivação do ato, ao que chamou de amor.

    1. Ulysses,

      eu acho que tema e forma têm importantância igual em filmes. Geralmente, as pessoas examinam os temas e deixam a forma apenas como moldura. Quando falo em esquematismo, estou analisando a maneira como Haneke conduz a história. Eu acho a história boa, bonita, mas não estou entrando na discussão sobre eutanásia. Meu questionamento é sobre o método de direção. A maneira que ele escolheu pra contar a história é que, a meu ver, joga contra a proposta do filme. Para mim, esse modus operandis ressalta a manipulação. Mas continuo achando que “Amor” é um filme bem interessante.

      1. Achei o filme uma estrela a mais que a sua crítica,mais neguinho vim fazer chorinho no site e não ser democratico e respeitar uma opnião é
        falta de maturidade! Falo isso pois já tive essa postura alguns anos atrás quando alguém discordava do filme que eu achava estupendo.Nada que os passar dos anos não mude não é chico?

  2. Acabei de assistir e gostei bastante. Porém fiquei chocada com a frieza das relações ou mesmo da falta delas. O envelhecer, adoecer e morrer em terras tupiniquins é mais caloroso, íntimo e totalmente compartilhado na família, pelo menos na maioria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *