Antes do Pôr-do-Sol

Não há quase nada para escrever sobre Antes do Pôr-do-Sol. Dizer que o filme reafirma o provisório, como se falou por aí, além de chover no molhado, parece querer teorizar muito em cima do que não se pretende complexo. O filme de Richard Linklater pode não ter sido o melhor do ano, mas com certeza foi o mais bonito, o que tratou com mais carinho o reencontro enquanto tema. É um filme de blá-blá-blá mesmo, sem vergonha disso. Porque não parece necessário se ter vergonha das palavras. E Linklater não tem a mínima. Apóia seu filme inteiro no texto e praticamente se ausenta de uma embalagem mais visível. Não há particular cuidado com técnica – o que não é demérito – mas sim em deixar o diálogo em primeiro plano. Até Paris, uma Paris menos turística (uma visão mais européia, por sinal) aparece discreta.

Ethan Hawke, sem ser um grande ator, se adequa com perfeição às características de sua personagem, e Julie Delpy, uma fada loira encantadora, encarna mais uma vez sua Celine com delicadeza e acidez inigualáveis. É uma atriz imensa. Saber que a dupla se trancou num quarto de hotel com o diretor para escrever, a seis mãos, o roteiro apenas deixa mais magnético o filme. Um filme a partir de improvisos – e sobre improvisos. E Linklater assume isso como estética e como condição narrativa. Não há preocupação formal ou em fechar contornos. Ninguém sabe nada e não se tem a mínima idéia do que um sente pelo outro de verdade.

Também não há nada de muito inovador no que se diz. Há inclusive muita bobagem. É um papo de reencontro, de gente que não se conhece direito, que não tem tanta coisa assim pra se dizer porque justamente não trocou tantas experiências assim. Trabalhar em cima desta intimidade que não existe é uma idéia realmente muito boa. Muito melhor que a do encontro em si. Esta seqüência devora o filme anterior. Quase dez anos depois, as personagens são dois desconhecidos que passaram uma noite juntos e só. O reencontro não gera nenhuma discussão maior, não se calcula o amor (se é que ele existe). “Como você está?”, “o que você tem feito?” parecem perguntas muito mais pertinentes que “você me ama?”, “quer ficar comigo?”. Antes do Pôr-do-Sol nasceu para ser pequeno. E é grande por causa disso.

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[Before Sunset, Richard Linklater, 2004]

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