Ben Affleck provavelmente conhece suas limitações. Sabe que nunca guardou um talento especial no campo da atuação e, cinco anos atrás, numa arriscada decisão que transformou sua carreira, resolveu passar para o outro lado das câmeras. Argo, seu terceiro filme como diretor é um thriller político eficiente que vem sendo apontado pelos especialistas como o favorito ao Oscar 2013.

No melhor estilo George Clooney, além de dirigir, Affleck produz e estrela o longa, baseado numa reportagem que narra a tentativa de um agente da CIA de resgatar de diplomatas americanos em Teerã, capital do Irã, no comecinho dos anos 80. O charme do material, algo que pode ter influenciado o diretor a se interessar pelo projeto, é como essa história termina se costurando a Hollywood, mais especificamente à produção fake de um filme de ficção-científica, disfarce da missão de resgate. Uma maneira interessante de refletir sobre as idiossincrasias de sua profissão.

O elemento extra deu um humor inesperado ao filme e garantiu um diferencial já que, embora pareça seguro, Affleck segue à risca uma fórmula bem conhecida, utilizada em alguns dos grandes títulos do gênero: a câmera na mão e a fotografia azulada garantem o caráter documental que um longa como este parece exigir, enquanto a montagem ajuda a dar a grandiosidade a uma ação que acontece em espaços diferentes.

Numa decisão esperta, Affleck se cercou de colaboradores com pedigree nesta seara: o montador é o mesmo de O Informante, o compositor trabalhou com George Clooney em Tudo pelo Poder, o diretor de fotografia fez Inimigo de Estado e Desejo e Perigo. Todos estes filmes, em maior ou menor grau, podem ser classificados como thrillers políticos. Mas o resultado, embora sempre correto, não impressiona tanto.

Como ator, Affleck está surpreendentemente sóbrio, mas também não se arrisca muito. Os veteranos Alan Arkin e John Goodman, como um produtor e um maquiador de Hollywood, são os destaques do elenco, responsáveis pelo alívio cômico que o filme reserva para o espectador. Arkin, por sinal, concorre ao Oscar mais uma vez. Bryan Cranston, da série “Breaking Bad”, como o superior do personagem de Affleck, é outro coadjuvante que chama atenção.

Em suas duas investidas anteriores como cineasta, Affleck dirigiu duas performances indicadas ao Oscar: Amy Ryan, em Medo da Verdade (sua estreia na nova função); e Jeremy Renner, em Atração Perigosa, ambos bastante elogiados. A carreira de Ben Affleck é uma prova de que Hollywood, às vezes, corrige algumas injustiças. Apesar de ter ganho um Oscar aos 25 anos, pelo roteiro de Gênio Indomável, só dez anos depois, quando estreou como diretor é que ele ganhou respeito. Invadir o terreno do thriller político, gênero nobre no cinema americano, foi uma ousadia que, se não rendeu um grande filme, revelou um cineasta sem medo de arriscar.

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[Argo, Ben Affleck, 2012]

Texto publicado originalmente no Uol.

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