Virginia Woolf escreve: – acho que eu mesma vou comprar as flores. Laura Brown lê: – acho que eu mesma vou comprar as flores. Clarissa Vaughan diz: – acho que eu mesma vou comprar as flores. As Horas, o filme de Stephen Daldry baseado no livro de Michael Cunningham, abre com a proposta de contar um pedaço das vidas de três mulheres que nunca se conheceram, mas têm muito em comum. Cada ato de uma delas reflete na vida da outra.

A premissa é boa. Intercalar três narrativas e discutir as vidas limitadas das três personagens, que esbarram nas próprias barreiras e não encontram a felicidade que tanto almejam. A incapacidade de lidar com o mundo, um casamento infeliz, um amor que nunca aconteceu. As pequenas infelicidades do dia-a-dia cultivam mais material literário (ou fílmico) do que se possa imaginar. A edição de As Horas trabalha bem as relações entre suas protagonistas, mas seu roteiro nunca penetra em seus interiores complexos.

Julianne Moore, Nicole Kidman e Meryl Streep são excelentes atrizes. E têm desempenhos elogiosos aqui, mas não encontram no próprio texto o espaço necessário para desenvolver seus personagens. O personagem mais bem trabalhado no texto é o Ed Harris, que dizem ser baseado no próprio Cunningham. A presença pequena de Toni Colette é perfeita. Mas o ciclo iniciado se completa sem o grau de envolvimento necessário para conquistar o espectador.

As Horas se propõe a grandes discussões sobre problemas que parecem pequenos. Mas pequeno é o grau de profundidade alcançado pelo roteiro (e talvez pela direção). O desenho das três mulheres é fértil e imensamente cheio de possibilidades, mas nunca há mergulho. Superficialidade talvez não seja a expressão mais adequada. Inabilidade talvez. Stephen Daldry nos oferece uma bandeja farta e colorida (plasticamente indefectível) mas, quando nossas mãos são estendidas para se servir, as frutas desaparecem ou perdem a cor.

A bela fotografia, a competente direção de arte e a trilha incitante de Philip Glass aumentam o interesse, mas não satisfazem nossos olhos e nossas vontades. Há um gosto indesejável de falta. Falta de definição, sobretudo. Não é um filme ruim. Muito pelo contrário. É um filme que promete muito, mas não se cumpre.

As Horas
[The Hours, Stephen Daldry, 2002]

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