Bom Dia, Noite

Neste ano, chegaram aos cinemas brasileiros três filmes de três grandes cineastas, que se propuseram a uma missão difícil: tentar entender o mundo. Em Nossa Música, Jean-Luc Godard discute o conflito entre os opostos como motor das sociedades, tese ratificada em Um Filme Falado, de Manoel Oliveira, que mostra que a violência e o terror conduzem a história das civilizações. O italiano Marco Bellocchio, em seu mais recente trabalho, não foge muito ao tema. O que diferencia o filme de Bellochio dos outros dois – dois grandes filmes, por sinal – é que seu discurso é menos feroz e seu exemplo é uma pequena história.

O seqüestro do então presidente da Democracia Cristã italiana, Aldo Moro, pela Brigada Vermelha, poderia ter se transformado num filme burocrático, político (no sentido mais restrito da palavra), naquele esquema “vamos ser reais e fiéis aos fatos”, sem posicionamento significativo por parte do diretor, algo bem comum hoje em dia. Mas Bellocchio, um diretor engajado, toma rumo contrário e questiona muito mais, questiona a ideologia através de uma das personagens do filme. Bom Dia, Noite é sobre a transformação da ficção em realidade, sobre a verdade construída, sobre a arrogância das convicções. O filme é extremamente corajoso ao aproximar o discurso revolucionário do pensamento ditatorial.

A fragilidade desse discurso se revela na dúvida. Dúvida da seqüestradora que não sabe mais o que é certo; dúvida do próprio grupo que, quando tem um dos homens mais importantes da Itália nas mãos, não sabe muito bem o que fazer – ou o que querer. Aí, o cineasta chega à exata mesma conclusão que Godard e Oliveira: a violência, a disputa pela superioridade, o conflito entre os opostos estão intrinsecamente ligados à civilização que o homem construiu. É impossível que haja história sem que haja alguém que queira impor suas certezas, suas razões, seus motivos. A verdade, quem escolhe é o narrador.

Por isso, é particularmente significativa a solução da personagem principal para seu dilema: Chiara, assim como as outras personagens – e assim como Bellocchio -, parte para a ficção para acalmar suas ânsias, linearizar suas verdades. É nela, em sua verdade inventada, que ela decide acreditar. Nada muito diferente de seus companheiros. Quando se nega a dizer o que está certo ou errado, quem é mocinho ou vilão, o que real e o que não é, o diretor assume aquela que talvez seja o mais importante posicionamento que um autor pode assumir: o do questionador.

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[Buongiorno, Notte, Marco Bellocchio, 2003]

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