Matt Reeves

Cloverfield certamente vai ser lembrado pelo hype. 1) filme de monstro no sentido mais clássico da expressão, tem como seu principal fiador J.J. Abrams, o cultuado criador de Lost; 2) fez um mistério em torno de sua criatura como há tempos não acontecia; 3) tem um formato ‘câmera na mão’ que, junto com o mito gerado pelo suspense pré-filme, rendeu comparações imediatas com a experimentação de A Bruxa de Blair. Será uma maneira equivocada de se lembrar do filme. Cloverfield não é apenas muito bom, mas muito inteligente.

Estamos diante de um filme de monstro, sem dúvida. Não há concessões quanto a isso. Extremamente impiedoso, o longa traz um bicho gigante devastador, que além da força bruta ainda vem com companhia, e solta a criatura diante de uma Nova York sem muita resistência. Há muita competência em se promover suspense, terror, pânico, elementos que fazem de um filme com esta proposta um bom filme. Cloverfield é bastante eficiente nesse aspecto, embora o formato mais, digamos, livre possa provocar reações adversas. Filmes de monstro não são para todos.

Mas este filme está um passo além disso. O foco, embora haja a presença de militares pontuando o longa, não é a capacidade de resistência da cidade. Não interessam as estratégias bélicas, mas sim trajetórias. Especialmente a de um grupo de amigos e de uma câmera digital. E é ela a protagonista do filme, mas não porque dá um formato mais moderninho para Cloverfield. Nesse quesito, a idéia de rodar o filme 100% com uma câmera, adotando literalmente um ponto de vista diante da tragédia, é mais radical do que os planos fixos de Festim Diabólico, por exemplo.

A câmera intencionalmente ou não termina por simbolizar a paixão e a dependência cada vez maior do homem atual pelo registro. A preservação da imagem está presente na abertura e em toda a duração do filme. O personagem do amigo a que é dada a função de gravar depoimentos em uma festa de despedida – e que ganha uma personalidade quase psicótica quando toma para si a missão de registrar o ataque – é a transcrição para a tela de uma sociedade apaixonada pela imagem, pelo explícito e pela invasão da ‘vida real’. E se essa reflexão vem na forma deliciosa de um filme-catástrofe, melhor ainda.

Cloverfield – Monstro Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela
[Cloverfield, Matt Reeves, 2008]

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