Ambição costuma ser uma faca de dois gumes para um artista. Ao mesmo tempo em que pretender algo mais deveria ser um objetivo para qualquer um que se arrisca como criador, nem sempre se consegue dar conta de suas apostas na maneira como se usa suas referências. Depois de tantos anos de cinema, ser ambicioso e bem-sucedido nessas ambições fica mais complicado para os diretores estreantes. Felizmente, esse não é caso do primeiro filme de Kogonada como cineasta. Estudioso da arte, ele já comandou o que chama de ensaios visuais para instituições como o British Film Institute. Em Columbus, primeira obra em que se volta para o cinema mais especificamente, ele consegue trazer uma discussão sobre arquitetura num raro casamento entre interesse acadêmico e confecção dramática.

A arquitetura é amarrada ao roteiro através das relações dos protagonistas com a arte. Relações muito pessoais e passionais, embora o filme seja econômico na administração das emoções dos personagens. Essa costura é difícil, mas Kogonada desenvolve a aproximação de Jin e Casey com delicadeza e consistência, revelando aos poucos seus dramas comuns sem lugares muito comuns. O filme dialoga com o cinema indie norte-americano em algumas temáticas ao mesmo tempo em que se afasta dele na maneira como desenvolve a história e, sobretudo, na forma. Cada plano é um quadro para o diretor e ele não apenas aproveita, como trabalha a partir da arquitetura de Columbus, uma pequena cidade que é referência em arquitetura moderna. Enquadra os prédios de maneira pouco usual, escolhe recortes e deriva essa obsessão até para as cenas internas, buscando ângulos inusitados, ressignificando cada detalhe.

ColumbusA sensibilidade para a composição da imagem e para o desenvolvimento de uma linguagem específica a partir dela ressoa em outras searas. O cineasta, sul-coreano criados nos Estados Unidos, convocou John Cho, um ator nascido em Seul, mas com uma carreira sólida no cinema americano para protagonizar o filme, vivendo – coincidentemente ou não – um sul-coreano que viaja para a pequena cidade do estado americano de Indiana porque seu pai, um professor universitário está em coma. A identificação entre diretor, ator e personagem fica mais clara quando sabemos que Kogonada foi criado em Indiana. Cho encarna a tarefa de traduzir a ascendência comum com sobriedade, mas sua interpretação ganha mesmo é com a interação com Haley Lu Richardson. A jovem atriz, que já tinha chamado atenção em Quase 18 e Fragmentado, tem seu maior, mais complexo e delicado papel e e consegue uma química especial tanto com Cho quanto com Rory Culkin, igualmente muito bem.

A melancolia impera em Columbus, mas diferentemente do cinema indie convencional – chegamos a este ponto -, sua tristeza não parece de verdade.

Columbus EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Columbus, Kogonada, 2017]

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