Ei menino, queria um minutinho da sua atenção hoje.

Tô escrevendo pra você que sofre com essa angústia no peito; que ainda hoje acha que não vai saber lidar com o que os outros vão achar; que vive com esse segredo “porque é o jeito”.

É com você que ainda não entendeu muito bem o que vai fazer com tanta informação na sua cabeça; que controla seu jeito de andar e falar para ninguém se dar conta; que gosta calado; que não quer machucar as pessoas que você ama ou que tem medo das pessoas que você ama.

Eu parei pra escrever pra você que jurou que, se o seu irmão “virasse gay”, você seria hetero pra que a decepção da sua família fosse menor; pra você que começou a não gostar de você mesmo porque seus pais, sua igreja, sua escola disseram que quem você era, era errado.

Que se masturbou com culpa porque pensou em outro menino; que entrou em pânico só de pensar que alguém poderia descobrir; que olhou tantas vezes desconfiado de que alguém estivesse desconfiando.

E também pra você que sofreu um pouquinho com cada piada, mesmo as mais inocentes, mesmo as que não eram endereçadas pra você.

Que ficou chocado quando percebeu que tem gente lá fora que tem um ódio muito profundo por meninos que gostam de meninos, que pode até matar.

Pra você que foi chantageado, abusado, agredido verbal ou fisicamente. E ficou calado. Ou contou, mas ninguém ligou.

Escrevo pra você que, pelo menos um dia, achou que nunca formaria um par, que nunca seria feliz. E também pra você, menino, que encontrou um par que não era quem você esperava, mas que você aprendeu a amar e com quem formou uma família cheia de amor sincero. Mas que teve de adaptar seu coração pra isso.

Bem, você sabe que as coisas vem mudando. Muito lentamente, mas vem mudando.

Começaram a contar histórias parecidas com a sua — mas na vida real é tudo é um pouco mais complicado, né?

Demorou pra caramba pra deixarem ter beijo gay na TV e tudo.

Tem cada vez mais livros e filmes e até séries de TV sobre meninos que também gostam de meninos — mas a maioria dos personagens ainda é muito caricata, verdade.

Como se identificar quando exageram nos trejeitos só pra fazer graça? Ou quando estas obras de ficção mostram que o destino para pessoas como você é uma vida marginal, onde tudo parece se resumir a sexo, e você quer algo mais? Ou, quando o negócio é tratado de forma séria, o personagem gay precisa sofrer, como se isso fosse uma sina pra quem gosta do mesmo gênero?

Mas tem uma boa notícia, isso está mudando também.

No começo deste ano, estreou Me Chame pelo Seu Nome, sobre um menino descobre que gosta de um cara mais velho e não sofre porque é isso é proibido, mas porque todo mundo sofre com seu primeiro grande amor. Tem outro que dá pra ver nos streamings que se chama O Reino de Deus. Não vou falar muita coisa pra não estragar, mas descubra como termina este filme.

Com Amor, SimonMas o motivo mesmo de eu te chamar é que você precisa ver Com Amor, Simon, que entra em cartaz já já, mas está em pré-estreias diárias pelo menos em São Paulo. É uma comédia romântica adolescente, “séria” como qualquer comédia romântica, cheia de verdades como qualquer “coming of age”. Só que tem uma diferença, é um filme gay, que conta uma história como a sua, com um personagem com as mesmas angústias, dúvidas e dilemas que você carrega. É um belo filme, escrito, dirigido e interpretado com muita sensibilidade, vá por mim. Aliás, vá. Ajude a encher os cinemas. Não porque você vá resolver sua vida assistindo a este filme, embora talvez ele te inspire de alguma maneira. Vá porque ele não é sobre sofrer, mas sobre atravessar a vida. Ele toma várias liberdades, tem várias simplicidades – afinal é uma comédia romântica, né? – mas é um filme bem sincero com os sentimentos. Mas não é nem por isso que eu vim aqui pra indicar este filme. Vá ver Com Amor, Simon exatamente porque ele é uma comédia romântica. Porque todo mundo tem direito a sua comédia romântica, inclusive você. Principalmente você.

Com amor, Chico.

Com Amor, Simon EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Love, Simon, Greg Berlanti, 2018

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