A melhor coisa desta nova fase do cinema de Terrence Malick está no domínio dos corpos. Pelo menos em De Canção em Canção. Aqui, as observações do diretor sobre a condição humana e a forma de se comunicar com o outro nos tempos atuais, que parecem ser o Malick pretende discutir desde Amor Pleno, são engolidas por um balé de sensualidade. O cineasta extrai uma intimidade impressionante de seu principal quarteto de atores. As cenas em que e Natalie Portman e Michael Fassbender e Rooney Mara e Ryan Gosling (e Cate Blanchett!) namoram, cada qual com seu par ou não, embalados pela câmera incontrolável de Emmanuel Lubezcki, são carinhosas, delicadas e extremamente sensuais, como se convidassem o espectador a namorar com eles. Essa sensorialidade deixa qualquer discurso ou tentativa de criar uma narrativa poética em segundo plano e segue apenas as regras de sedução que, em Malick, são múltiplas.

De Canção em CançãoPela primeira vez desde A Árvore da Vida, a obsessão visual do cineasta encontra uma viga de sustentação em outro aspecto do filme. O sensorial justifica a maneira como a câmera se move, como se a fotografia estivesse a disposição de traduzir essa intimidade. Há um bom tempo, os filmes de Malick parecem carregar o peso de quererem ir além da narrativa e encontrar seu próprio mecanismo, algo bem próximo ao próprio fluxo da vida. A principal maneira que o diretor encontra para traduzir esta procura e este estado de cinema é através de uma manipulação excessiva de sua fotografia. Os movimentos de câmera incessantes e circulares, que passam pelos rostos dos atores e ora revelam detalhes do que está em volta, seja uma flor ou um raio de sol, buscam um algo orgânico que nunca se revelava muito bem, mas que aqui encontra seu objeto.

As histórias – de amor? – ganham consistência com esta câmera viva, que sempre está se movendo, mas que dança com, sobre e através dos atores, compondo idas e vindas no tempo, sugerindo várias versões destas mesmas histórias. Os atores estão muito à vontade em trafegar por esta sensualidade sem que necessariamente estejam falando de sexo, mas de toque, corpos, explorar prazeres e carinhos. Quando o sensual invade a área do sexual, o jogo erótico que morria nele mesmo se vulgariza a ponto dos personagens perderem o interesse justamente quando tentam parecer mais profundos. A banalização abre espaço para os grandes temas voltarem e, mais uma vez, a plástica que aqui já fazia sentido também volta a lembrar um Koyaanisqatsi com intenções poéticas (lembrando que o próprio Malick fez o cansativo Voyage of Time).

O que nunca se justifica é a relação que Malick pretende estabelecer com a música. Se O Cavaleiro de Copas, um experimento audiovisual mais ambicioso e frustrante, esbanjava participações especiais de dezenas de atores, De Canção em Canção faz o mesmo com músicos como os Red Hot Chili Peppers, Iggy Pop, Lykke Li e Patti Smith. O palco deveria surgir para amarrar e pontuar o filme, mas parece ser sempre um apêndice – ou pura gordura mesmo. Se o o cineasta conseguisse ajustar o foco da câmera e passar uma hora e meia filmando a intimidade de seu elenco principal (poderia até chamar o longa de Corpo a Corpo), talvez assim conseguisse fazer um filme de amor. Por enquanto, fica apenas mais uma tentativa de ensaio poético que padece por um discurso vazio e morre em suas intenções. Ainda assim, é o melhor filme desta atual fase do diretor.

De Canção em Canção EstrelinhaEstrelinha½
[Song to Song, Terrence Malick, 2017]

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