O cinema bebe da fonte da história desde seus primeiros dias, mas como é uma expressão artística se permite interpretações próprias sobre fatos que saíram dos livros ou dos jornais. Certas vezes, isso dá certo. Mas não são raras as polêmicas em torno de possíveis distorções históricas. Oliver Stone, por exemplo, adora uma tese. Adora dizer “foi assim” e acabou. Pode perguntar o que quiser sobre qualquer assunto para o senhor Stone que ele já terá pronta sua própria teoria, cheia de conspirações, sobre o tema. É por isso que nem sempre se pode confiar no que se vê na tela.

Domingo Sangrento, o filme, é baseado num fato real: o famoso domingo na década de 70 quando os militares ingleses mataram 13 pessoas e deixaram outros 14 feridos numa manifestação pela independência da Irlanda do Norte. Mas o filme de Paul Greengrass não usa os mesmos artifícios conspiratórios de Oliver Stone. O cineasta e roteirista resolve seu roteiro escrevendo uma reportagem sobre o episódio. A questão aqui não é imparcialidade ou não – até porque Greengrass é claramente favorável à versão dos irlandeses, que realmente parece ser a certa. O que está em jogo é como contar uma história real e não soar banal e panfletário.

O filme adota um tom descritivo, quase documental, desde o início, mostrando como o parlamentar Ivan Cooper, vivido por um competentíssimo James Nesbitt, mobilizou uma cidade para uma marcha que deveria ser pacífica. Paralelo a isso, o filme mostra a articulação dos militares ingleses e o que aconteceu na casa de um dos militantes. A montagem, assim como a fotografia realista (câmera no ombro o tempo inteiro), não são novidades. Todo mundo já fez isso. Mas poucos com esse intento. O de voltar no tempo e mostrar o que aconteceu. Nisso, o filme de Greengrass é perfeito, como poucas reportagens de TV em tempos de guerra conseguem ser.

A interpretação de James Nesbitt merece atenção. A indignação no rosto do ator faz pensar em como o ódio é tão presente na nossa cultura. Em como a mínima provocação vira motivo para matar. Vira justificativa. Tudo está mais fácil hoje em dia. Inclusive perder o controle. A cólera surge do nada e se apossa das pessoas que descarregam o que quer que seja em forma de balas de metralhadora no peito de alguém. O filme de Paul Greengrass mostra muito bem que os motivos do homem podem ser de uma banalidade assustadora.

Domingo Sangrento EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Bloody Sunday, Paul Greengrass, 2002]

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