Dreamgirls

O musical talvez seja o gênero do cinema que mais tenha detratores. Por ser tão específico, ter uma relação forte com um teatro tipicamente norte-americano e por exigir do espectador uma disposição para entender a música e a dança como parte da narrativa, não é difícil perder a paciência com filmes assim. Eu nunca tive problemas com os musicais e, inclusive, prefiro aqueles em que as canções se integram ao roteiro de verdade, sem ser meros adereços. Em Dreamgirls, Bill Condon até tenta fazer isso em alguns momentos, mas nem sempre tem sucesso.

A interpretação de Jennifer Hudson está bem aquém de tanta celebração, mas sua estréia é boa, encarnando o velho perfil da negra desbocada fuckin’ bullshit. O problema é agüentar a moça em seus exageros vocais, como se gritar fosse sinônimo de ter uma voz potente. Curiosamente, Beyoncé, parecendo ter muita noção de suas limitações dramáticas, não tenta ser estrela, o que me pareceu bastante simpático. Anika Noni-Rose fica no meio-termo, entre os excessos e a discrição.

A história das garotas cantantes segue uma fórmula batida, mas Bill Condon tem algumas boas idéias para levar o palco para a tela. A direção de arte e, especialmente, os figurinos são o que o filme tem de melhor, embora haja alguns achados na fotografia, que perde feio para a que Dion Bebee entregou para Chicago (Rob Marshall, 2002), um musical da Broadway que ganhou uma versão bastante eficiente para o cinema. Mesmo quando faz sua crítica à indústria, o filme se mantém no velho duelo certo x errado.

O senão maior ao filme nem é a manjada condição de biografia de grupo musical, com direito a amores e richas, vilões e mocinhos, é sua própria música. Para ficar numa avaliação mais imediata, o filme tem um grande problema para um exemplar do gênero: a música é bem ruim. À exceção de “Love You I Do” ou “Patience”, mais tragáveis, todas as outras canções são emulações baratas da pop black music dos anos 70 para cá, limitadas tanto na criatividade quanto na execução. E olha que nem dá para se animar tanto com a performance de palco de um inspirado Eddie Murphy por causa das canções.

Dreamgirls – Em Busca de um Sonho EstrelinhaEstrelinha
[Dreamgirls, Bill Condon, 2006]

Comentários

comentários

8 thoughts on “Dreamgirls”

  1. pois é, o que me incomodou um pouco em Dreamgirls é que o diretor não decidiu se a narrativa ia ser com diálogos musicados ou com números musicais independentes. não é nem um pouco o melhor do ano, nem mesmo concorrente ao meu top 10… mas eu adoro um musical, mesmo que tenha problemas, hehehehe.

  2. Esse problema que vc citou é flagrante no filme, Fer. Na primeira vez em que uma canção é colocada como parte do texto, eu achei estranho porque até então nada tinha sido assim.

  3. A cada dia vou me dando conta com mais intensidade que pareço ter sido o único que realmente gostou de Dreamgirls (talvez pelo fato de eu ter ido ver o filme apenas como entretenimento, sem esperar algo mais). Já Antônia, não me interessei por ver depois da série exibida pela TV Globo (a qual achei um fiasco e um desperdício de tempo na televisão aberta).

    (http://claque-te.blogspot.com): A Conquista da Honra, de Clint Eastwood.

  4. O que vc quer dizer com desperdício de tempo na TV aberta? Se fosse na TV fechada tudo bem? “Antonia” é um belíssimo filme. Vc perdeu um belíssimo filme.

    E eu até tenho uma certa simpatia por “Dreamgirls”, mas o filme é meia-boca.

  5. Chico, despejei toda a minha fúria contra esse DREAMGIRLS no blog. O filme conseguiu superar o ódio que eu senti na época de CHICAGO.

    Já ANTÔNIA, é realmente um belo filme. Uma pena que pouca gente esteja vendo.

  6. Super concordei com tudo que você escreveu, Bombeiro.
    Vi a pré-estréia de Antonia e saí impressionado e felizinho.
    Vi Dreamgirls na véspera do Oscar e saí rindo – de vergonha.

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