Encontros e Desencontros: Tóquio, cidade-solidão

Encontros e Desencontros

Encontros, desencontros e as luzes da cidade

Bob Harris está a caminho do aeroporto. Pela janela, vê Charlotte, no meio de uma multidão de vai-e-vens. Acabara de se despedir dela, mas não de verdade. Ele pede ao motorista para parar o táxi. Termina de falar a frase bastante ansioso, quase nervoso. Sai do carro, dribla as pessoas e chega até ela. “Hey you”, diz ele. Os dois se olham, se abraçam e Bob sussurra algo no ouvido de uma Charlotte que se perde em lágrimas. As palavras exatas daquela conversa, em parte escrita por Sofia Coppola, em parte improvisada por Bill Murray, nós nunca saberemos por completo, mas o mistério de seu conteúdo transformou esta cena num dos mais icônicos momentos do cinema recente.

O cenário para o último encontro das duas personagens de Encontros e Desencontros são as ruas movimentadas de Nishi-Shinjuku, um distrito de arranha-céus no coração de Shinjuku, região cental de Tóquio. Uma moldura caótica para um momento de delicadeza, o ponto final de um namoro entre história e espaço físico cheio de sutilezas. Existem filmes que estão intimamente ligados ao lugar em que acontecem suas histórias, às cidades em que moram suas personagens, às locações por onde eles passam e que são, em maior ou menor grau, o motor de suas vidas ao longo daquelas duas horas de projeção. O segundo longa de Sofia Coppola respira Tóquio, a megalópole onde Bob e Charlotte perdem suas raízes, choram seus casamentos, vivem sua melancolia e se encontram.

As luzes de neon de Shinjuku

Primeira cena do filme: Bob Harris desembarca em Tóquio à noite, mas só ouvimos o barulho do avião. A câmera está fixa no bumbum de Charlotte, que dorme no hotel. Em seguida, no táxi, a caminho desse mesmo hotel, Bob olha através da janela para a cidade. Mais especificamente para as luzes coloridas que acendem os prédios de Shinjuku. É a primeira vez que a cidade se mostra no filme. Ele parece curioso, encantado, assustado com aquele lugar “estranho”. Parece entender que está entrando num mundo completamente novo, que está prestes a transformar sua vida.

Pouco depois da metade do filme: Charlotte volta para casa num táxi, depois de uma noite de festa, bebida e karaokê com Bob. A essa altura, ele já havia capotado a seu lado. Já ela, olhos grudados na janela, se admira com as cores e o brilho dos prédios da mesma Shinjuku. Parece curiosa, encantada, envolvida com aquele lugar “estranho”. Seu olhar fraterno revela que ela fez as pazes com Tóquio, que havia devorado sua felicidade e a mergulhado numa rotina vazia e melancólica desde que chegara ali com seu marido. A partir daquele momento, depois do encontro com Bob, a cidade deixa de ser uma vilã e passa a fazer sentido para Charlotte.

Encontros e DesencontrosA cidade vista do hotel

Curiosamente, esse filme tão profundamente amalgamado ao aspecto simbólico de suas locações tem quase que um cenário único. O Park Hyatt Tokyo, um dos mais caros e luxuosos hotéis da capital japonesa, abriga cerca de 70% das cenas do longa de Sofia Coppola. É como se aquele hotel monumental traduzisse, representasse a própria cidade, sua solidão, sua tristeza, sua ostentação. Das paredes de vidro do hotel, Charlotte olha para a cidade, distante, fria, como se enxergasse um muro de imensas proporções, como se procurasse um ponto de fuga. Para ela, neste conto de fadas desconjuntado, o hotel é a torre onde a princesa da história está presa.

Se, do alto de sua juventude, Charlotte parece celebrar o luto de uma vida que parece sem sentido, toda a experiência de Bob faz ele se esconder em subterfúgios. A piscina, a academia, o quarto onde ele recebe a visita de uma massagista performática, todos estes espaços funcionam como simulacros de uma vida que o ator decadente parece querer sustentar como genuína. As noites insones de Bob são no bar do hotel, o New York Bar, um espaço onde uma cantora de cabelos vermelhos tenta deixar as coisas mais confortáveis para os executivos que passam por ali depois de um dia duro de trabalho.

As coisas só mudam quando Bob encontra Charlotte no elevador. Encontro é modo de dizer porque eles não se falam. Ela mal o vê, mas a imagem daquela menina baixinha de cabelos castanhos enche o coração de Bob com alguma coisa muito boa. É quando a cidade é derrotada pelas pessoas.

De templos, monges e noivas

Cena um: Charlotte sai do hotel. Na estação de Omotesandō, a câmera a mostra de frente. Entra no que parece ser um trem que mais uma vez parece a levar para outro ponto de Tóquio. Rapidamente observa um homem lendo um mangá dentro de um dos vagões. Experimenta uma das maiores recorrências do Japão: homem + vagão + mangá. Mas nada disso importa. Ela desce num templo. O Heian Shrine, fica em Kyoto, a primeira capital do Japão, a cidade dos 400 templos. Mas talvez Sofia Coppola queira que acreditemos que Charlotte não saiu da cidade. De sua prisão. Ela observa monges que fazem uma oração. Procura paz, mas não encontra. Essa é Charlotte antes de Bob.

Cena dois: Charlotte sai do hotel. Desta vez, a câmera a mostra esperando o Shinkansen, o trem-bala que cruza o Japão. Durante a viagem, mais uma prova de que ela não está mais em Tóquio: pela janela, vemos que ela cruza uma cidade litorânea. A diretora agora parece assumir que Charlotte conseguiu se libertar. O destino é o Ryoan-Ji, outro templo, novamente em Kyoto, a primeira capital do Japão, a cidade dos 400 templos. Desta vez, Charlotte não observa monges. Ela passa por uma noiva e fica e encantada com aquela imagem. Sorri para ela, ganha algo como um sorriso de volta. A paz, ela já havia encontrado. Essa é Charlotte depois de Bob.

Encontros de DesencontrosVale-night em Shibuya

John sai para trabalhar e só volta no fim-de-semana. Deixa Charlotte no hotel. A mulher de Bob está do outro lado do Pacífico. Parece a chance perfeita para os dois desbravarem a cidade que, a essa altura, já havia deixado de ser aquele monstro. As luzes, o movimento e os seres noturnos de Shibuya, o centro da noite de Tóquio, o bairro de 13 mil pessoas por quilômetro quadrado, o cruzamento mais movimentado do mundo, parecem deliciosamente atraentes quando o coração está mais calmo. Bob e Charlotte fazem um tour pelas possibilidades.

Primeiro, invadem uma festa de onde saem sob a mira de uma arma, atravessam uma daquela lojas de games que ficam abertas 24 horas por dia, fumam substâncias proibidas com os amigos que fazem ao longo da noite e se rendem a uma das maiores paixões do Japão, quando vão com a turma para um karaokê box. Ele canta Elvis Costello. Ela canta Pretenders. E depois Bob volta para soltar as notas de “More Than This”, do Roxy Music. Celebram a vida, descobrem um ao outro, redescobrem a si mesmos. E voltam pro hotel. Ele, dormindo. Ela, olhando pela janela, as luzes da cidade.

No fim, mais do que a bela melodia de “Just Like Honey”, do Jesus & Mary Chain, que encerra o filme, depois de encontros e sussurros, é num trecho da letra da música que Bob canta no karaokê que “Encontros e Desencontros” se acha na tradução:

It was fun for a while / Foi divertido por um tempo
There was no way of knowing / Não há como saber
Like a dream in the night / Feito um sonho no meio da noite
Who can say where we’re going? / Quem sabe dizer onde vamos parar?

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