Entre o Amor e a Paixão

Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby

Sarah Polley parece acreditar que o amor tem seus dias contados, mas não transforma sua certeza num panfleto em favor da liberdade sexual, muito menos a trata com o peso da culpa, como mostra Entre o Amor e a Paixão. O filme é o registro sincero daqueles que podem ser os últimos dias de um casamento feliz. Dias em que a protagonista parece se conscientizar da mutabilidade dos sentimentos. Dona de uma carreira de quase 30 anos como atriz, a canadense que cresceu em frente às câmera de cinema curiosamente resolveu não interpretar a personagem principal. Michelle Williams foi a escolhida para assumir a protagonista, uma dona de casa que mantém um relacionamento estável com um escritor de livros de culinária e se pega apaixonada pelo vizinho da frente.

O ponto de partida engana. Na melhor tradição de Alejandro Agresti (de A Casa do Lago) e Isabel Coixet (com quem trabalhou em Minha Vida Sem Mim), Polley subverte as regras de histórias como esta (não aponta mocinhos ou vilões; evita estopins e reviravoltas) e reescreve o melodrama clássico com um frescor que parece simples, mas que poucos diretores alcançam dentro do cinema norte-americano. A escalação do comediante Seth Rogen, ótimo, para o papel do marido, é a prova da rebeldia da diretora. O ator traz todo seu repertório de piadas para o personagem, tornando-o irresistível para o público, que entra em conflito já que num filme com essa temática o que se espera é que haja alguém por quem torcer. A decisão equilibra os papéis e humaniza os personagens principais, o que permite com que a cineasta disserte sobre o tema com naturalidade, como consequência do caso a que todos estão sujeitos.

Polley já tinha feito algo parecido com seu longa anterior, Longe Dela, filme que dirigiu e escreveu, e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado. Um trabalho em que ela demonstrou ser capaz de dominar a história de um amor na velhice sem recorrer aos mecanismo simplistas que envolvem filmes com personagens doentes. A melancolia quase sóbria do filme se repete em Entre o Amor e a Paixão. Quase porque o ato final do filme parece ir de encontro a todo o resto. Durante quase todo o longa, a protagonista é movida pela certeza de que sua vida mudou de capítulo, por mais doloroso que possa parecer deixar parte de sua história para trás. Um comportamento que o filme endossa e parece defender, se isentando da busca por culpados. Mas, em determinado momento, Sarah Polley parece aderir à simplificação que evita ao longo do filme, comandando um julgamento silencioso da personagem. Afinal, qual é o problema em fazer um filme romântico?

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