Escola do Rock

Em Salvador, existe um lugar chamado Calypso. Foi o primeiro bar que eu conheci desde que vim morar aqui. Talvez seja o lugar mais rock’n’roll do mundo. Um sótão apertado onde você tem que atravessar a banda para comprar sua cerveja. O mesmo trajeto conduz ao banheiro. Só vai ao Calypso quem gosta de rock. O lugar é intragável para quem acha que Maria Rita fez o disco do ano ou que a música eletrônica deixou tudo para trás. O Calypso vai fechar. A comunidade roqueira de Salvador está bem triste. Porque aquele velho espírito livre do amante do rock talvez não tenha mais espaço no mundo de hoje. Na verdade, nem sei muito bem porque eu escrevi isso tudo… Eu andei pensando muito e descobri que eu não sei escrever sobre Escola de Rock. Talvez porque eu não saiba me expressar muito bem sobre as coisas de que eu gosto muito. E eu gosto muito deste filme de amor.

Escola de Rock é um filme de amor, amor pela música. Amor maior que tudo, como devem ser os amores. O longa de Richard Linklater, do excelente Antes do Amanhecer (95), adota todos os clichês dos filmes de escola e dos filmes de rock, muitas vezes é óbvio, mas nunca, absolutamente nunca, deixa de ser um filme delicioso. A cena mais bonita é quando o personagem de Jack Black, que montou uma banda-mirim com fins estritamente egoístas, começa a perceber que as crianças estão se envolvendo de verdade com a coisa que ele mais ama. A partir daí, sua função na história é de professor mesmo. De ensinar rock’n’roll para os garotos. E não existe nada mais nobre que isso: ensinar o que se ama. É bobo isso que eu escrevi. Esse texto é provavelmente o mais pobre que eu já fiz, mas eu não sei fazer de outro jeito.

Linklater obedece todas as regras criadas por filmes como Ao Mestre Com Carinho (67), com carinho, mas nunca resvala na falta de originalidade justamente porque aposta nesse fascínio pela música. O roteiro de Mark White, o ator que interpreta o melhor amigo de Black, transcende os clichês criando cenas que não deixam nada a dever a clássicos do filmes sobre rock, como Quase Famosos (00), o melhor de todos. Não vou nem falar sobre a performance perfeita de Jack Black e de seus encantadores pupilos. Muito menos das canções da trilha sonora, entre elas as compostas para o filme. Só posso dizer que Escola de Rock me deixou bem emocionado em algumas muitas cenas. Cenas em que a gente percebe que aquilo que a gente ama tanto ainda pode tocar gente que está começando a conhecer o mundo. Nada como um solo de guitarra. Nada como ouvir David Bowie quietinho no quarto, com as luzes apagadas, e uma vontade danada de chorar.

Escola de Rock EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The School of Rock, Richard Linklater, 2003]

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