Eu, Robô, o filme de Alex Proyas, é “sugerido por” Eu, Robô, o livro de Isaac Asimov. Isto está escrito nos créditos finais do longa-metragem. “Sugerido por?” deve ser algo mais leve que “baseado em”, algo como “inspirado por”, já que a ligação entre as duas obras é apenas a maneira oportunista, extremamente comum no cinema atual, na qual uma produção se apropria de elementos de trabalhos anteriores. A prática é vil: usar idéias de outros como se fossem suas para suprir falta de potencial criativo.

Nos contos de seu livro, Asimov mostra histórias de robôs que entram em conflito ao tentar cumprir as determinações das “três leis da robótica” ? que guiam as formas de vida cibernéticas ? sem ferir um dos tópicos. Os conflitos são interiores. No filme de Proyas, a máquina se volta contra o homem no eterno retorno do embate criatura-criador. Os conflitos são a base que sustenta a trama de explosões e porrada. Eu, Robô, o filme, não é Eu, Robô, o livro. Então, por que deixar que o desavisado espectador acredite que sim? Tática comercial, aposta na marca consagrada? Provavelmente.

Caso oferecesse um resultado final bom, o filme até poderia passar por um episódio não escrito por Asimov, mas, ao contrário, o longa-metragem parece negar a cada cena as idéias que “o sugeriram”. O(s) robô(s) é(são) o Frankenstein tecnológico dos próximos anos; não há o mínimo respeito pelo original. O resultado é uma confusa concepção do personagem de Will Smith, que é racista, tem comportamento psicótico e ideais próximos ao nazismo para depois seguir o caminho do policial de bons princípios.

O roteiro, esperto como poucos, creditado ao irregular Akiva Goldsman, ainda abre espaço para que o ator destile as piadas mais imbecis dos últimos tempos. Will Smith parece tão boçal e sem graça que apenas ganha credibilidade quando sua parceira está em cena. Bridget Moynahan é tão ruim que não há possível comparação com qualquer interpretação feminina neste ano. Mas como diz a lenda que toda porcaria tem seu lado bom, a concepção visual (sobretudo a direção de arte) é muito boa. E os efeitos visuais ajudam a esconder os defeitos morais do filme. Não é à toa que a melhor interpretação do filme seja a de Sonny, o robô que provoca toda a história.

Eu, Robô EstrelinhaEstrelinha
I, Robot, Alex Proyas, 2004]

Comentários

comentários

Um pensamento sobre “Eu, Robô”

  1. Eu não vi nada de mais também. Mas há quem veja elementos interessantes, como o braço mecânico do Will – hoje um braço, amanhã uma perna, mais tarde um tronco… até onde ele continuará humano? Ou melhor, em que parte do corpo estará a humanidade? No cérebro? E quando um robô tem um “cérebro”/”espírito” idêntico a de um humano – como o Sonny -, ainda poderá ser chamado de máquina?

    o personagem começa preconceituoso, mas vai mudando ao longo do filme.

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