A opção pela comédia nonsense fere Eu, Tonya mortalmente. Há questões muito sérias na história – da patinadora bronca que teria patrocinado uma agressão brutal a uma adversária – que poderiam gerar uma discussão mais complexa sobre a América profunda ou o impulso violento do norte-americano médio. Mas se a intenção foi lançar esse “estudo” num modelo, digamos, mais pop, o efeito foi justamente o contrário: o que havia de qualidade no projeto foi jogado fora para se fazer um filme espertinho, cheio de sacadinhas de roteiro e montagem, e com interpretações afetadas, muitas vezes caricatas demais.

eu, Tonya A sensação depois de algum tempo de filme – principalmente depois que surgem as questões mais sérias – é de que tudo é tratado de maneira absolutamente banal, sem que o longa consiga fazer qualquer reflexão em cima de fatos tão agressivos e, pior de tudo, fazendo piada em cima de um punhado de pequenas tragédias. Com esse tom impregnando o filme, suas qualidades pontuais, como a recriação de época, a maquiagem ou a performance de Margot Robbie, sofrem um baque, perdem o brilho. Talvez imbuída de um sentimento de se “deu certo em O Lobo de Wall Street“, filme que a revelou, “vai dar aqui também”, a atriz, que também é produtora do filme, mergulha num tom jocoso que parece, no mínimo, equivocado.

Diante desta fragilidade conceitual, de um ponto de partida questionável, as brincadeirinhas do filme ganham um gosto amargo e desnecessário. Não que o diretor Craig Gillespie seja a grande mente criminosa por trás do filme, mas será que o máximo que ele consegue de “assinatura” é colocar o elenco falando com a câmera? A ironia a partir de um assunto sério, que funcionou nas entrelinhas em Foxcatcher porque Bennett Miller encontrou um tom dúbio que passa gradativamente do excêntrico para o doentio, por exemplo, é mero mau gosto em Eu, Tonya, um filme que parece não ter nenhum respeito por seus personagens.

Eu, TonyaCom todo mundo imbuído da missão de brincar, somente uma atriz experiente como Allison Janney consegue manter algum equilíbrio entre os humores do filme. Mas o mais complicado desse projeto tão arriscado, no entanto, é que, num ano tão sintomático na luta por direitos, espaço, representação das minorias, num ano em que as mulheres finalmente conseguiram levantar a voz contra a violência, o tratamento dispensado para temas como agressões domésticas, por exemplo, seja, no mínimo, irresponsável. Melhor mesmo é se concentrar nas ótimas cenas de Margot Robbie nos rinques de patinação. Momentos kitsch, cheios de efeitos visuais perceptíveis, com uma câmera meio cafona. Talvez a maneira mais correta de capturar o espírito caipira de Tonya Harding.

Eu, Tonya EstrelinhaEstrelinha
I, Tonya, Criag Gillespie, 2017

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