Febre do Rato diz muito sobre Cláudio Assis. É o melhor longa do cineasta e seu trabalho mais maduro. Um filme que completa a belíssima leva de obras que diretores pernambucanos apresentaram neste ano, fazendo uma parceria com Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão, e o melhor de todos eles, O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. Todos estes filmes, de uma forma ou de outra, em graus e sob prismas diferentes, tentam encaixar seus protagonistas no mundo contemporâneo.

Esse “tema” é o que coloca Febre do Rato num patamar e numa perspectiva que divergem dos longas anteriores de Assis. A essência do homem está toda lá, mas a predisposição para incomodar, que o diretor costuma exalar dentro e fora de seus filmes, ganhou, talvez pela primeira vez, um discurso. Um discurso romântico, mas que explica como o cineasta enxerga seu papel no mundo. Uma visão quase melancólica e desesperançada de sua tentativa de ser ouvido. O protagonista é, como Assis vê a si mesmo, o último combatente numa batalha sem chances de vitória.

O filme volta ao Recife urbano e aos personagens que vivem às margens dos grandes prédios, como em Amarelo Manga, mas sem a fome de denúncia que infesta o longa de estreia do diretor. Sua resistência está no cotidiano. A fotografia de Walter Carvalho é, mais uma vez, um escândalo. O personagem principal é um poeta esquerdista que, entre panfletos revolucionários e discursos rebuscados que quase ninguém ao seu redor entende muito bem (mas todo mundo aplaude), tenta transformar (a ideia d)a sociedade. O eco de sua postura não provoca fatos em si, mas dá a ele a condição de xamã da comunidade em que vive.

Assis cria quase que uma dimensão paralela para seus personagens, um estado (de espírito, talvez) que o cineasta parece almejar. Eles vivem num ambiente de completa liberdade comportamental e sexual, conduzidos por uma mistura de cachaça, maconha e uma postura, digamos, artística em relação à vida. Nesse contexto, o protagonista, vivido por Irandhir Santos, que empresta uma dignidade impressionante ao papel, numa espécie de alter ego do diretor, entra como líder espiritual e motor do grupo. A provocação está por toda parte: o casal perfeito é um homem e um travesti; a relação ideal tem uma mulher e três rapazes; o desejo não tem limite, nem para senhoras idosas.

Embora masturbe seus personagens com seus ideais libertários, Assis reserva para seu personagem principal, aquele em que o diretor enxerga a si mesmo, um papel de sonhador, de alguém que flutua sobre a realidade. Sua luta parece inócua: no discurso final, ele defende o utópico e não a prática de suas desejadas transformações, como se sua função fosse apenas incomodar, provocar, coisa que Assis sempre fez, mas adotando uma postura agressiva e muitas vezes gratuita. Sua poesia, ruim, parece perdida no tempo, e sua obsessão pela adolescente (Nanda Costa, que virou protagonista da novela das nove), parece resumir sua causa perdida. Mas para Cláudio Assis, nem toda causa perdida é uma causa desistida.

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[Febre do Rato, Cláudio Assis, 2012]

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