Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 11

Os 33

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[Los 33, Patricia Riggen, 2015]

O maior problema de Os 33 não é a superficilidade com que a mexicana Patricia Riggen desenha suas personagens, associando cada um a um estereótipo para ficar mais fácil contar sua versão pasteurizada, mas funcional da operação de resgate dos 33 mineiros que ficaram soterrados no Chile alguns anos atrás. A grande questão é a lógica ultrapassada de que uma história desse porte precisa ser uma superprodução internacional, falada em inglês, e cheia de astros das mais variadas nacionalidades – menos chilenos. O cinema já passou dessa fase. Filmes assim tendem a funcionar cada vez menos. Seria muito mais digno rodar um filme em espanhol com um elenco conhecido, mais prioritariamente latino. As escolhas de Antonio Banderas (espanhol), Rodrigo Santoro (brasileiro) e Lou Diamond Phillips (americano nascido nas Filipinas) são entendíveis. Nomes relativamente conhecidos que vão agregar público, mas trazer Juliette Binoche, por melhor atriz que seja, para o papel de uma chilena queimada de sol é algo bizarro. Ela parece completamente deslocada como Maria – é o miscasting da década – e qual é a lógica de escalar Bob Gunton, um ator sem qualquer assinatura para fazer o presidente do Chile? No mais, Os 33 mostra alguma habilidade em criar cenas emocionais, principalmente nos reencontros, embora a história real já seja suficientemente lacrimosa. É um filme minimamente eficiente, mas poderia ser bom.

Anomalisa

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[Anomalisa, Charlie Kaufman, 2015]

Charlie Kaufman, que sempre procurou as estranhezas da vida, agora parece estar, se não com o coração mais calmo, pelo menos mais consciente com sua busca pelo mais simples. A mente perigosa por trás de Quero Ser John Malkovich e Adaptação assina sua primeira animação, o delicado Anomalisa, e transforma um dos exemplos máximos da nossa sociedade comandada pela burocracia, um consultor de RH, em protagonista. Mas não se trata de um consultor de RH qualquer. Michael Stone é uma celebridade do mundo corporativo: um homem que ajudou a implantar um sistema para padronizar serviços e agora se vê vítima de um mundo milimetricamente calculado. O anti-herói de Kaufman, em viagem para fazer uma palestra, passa a questionar suas escolhas na vida quando descobre uma mulher que tem uma voz pela qual se apaixona. Ela destoa do mundo como o próprio diretor se diferencia de seus colegas – mas até quando? Mais maduro do que em seus outros filmes, que procuram destacar a estranheza de suas ideias diante de um mundo onde elas não acham espaço, em Anomalisa, Kaufman desta vez parece olhar para si mesmo com mais cuidado do que admiração e percebe que muitas vezes não é o mundo que não te abre uma clareira, mas você mesmo que não quer se encaixar. E ter a consciência disso deixa as coisas bem mais tranquilas.

Les Chevaliers Blancs

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[Les Chevaliers Blancs, Joachim Lafosse, 2015]

Afeito a dramas familiares pesados como Propriedade Privada, Lições Particulares e Perder a Razão, todos tratando de relações controversas dos protagonistas para com aqueles que estão por perto, o belga Joachim Lafosse, desta vez, resolve ampliar suas discussões éticas viajando para a África. Vincent Lindon interpreta o presidente de uma ONG chamada Move for Kids, que, sob a égide de salvar órfãos da guerra civil no Chade, resolve montar uma grande operação para fugir do país com cerca de 300 crianças que já foram prometidas a famílias francesas que estão na fila de adoção. Lafosse acompanha os personagens com uma câmera quase documental, o que viria a se tornar um problema porque oficializa as escolhas morais do grupo como se elas fossem escolhas morais do filme. Embora consiga transformar o foco de seu registro, revelando aos poucos as atitudes limítrofes dos personagens, em especial do protagonista, como se desse pistas de que discorda dele(s), Lafosse nunca assume uma postura verdadeiramente crítica em relação a toda a ação. Na maior parte do filme, parece defendê-la, por sinal. O desfecho talvez indique uma tomada de posição, mas combina mais com a série de finais impactantes que o cineasta adorar deixar estourarem nas mãos do espectador.

Eu Sou Michael

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[I Am Michael, Justin Kelly, 2015]

“Você deu aos anti-gay a história que eles precisavam”. Esta frase é dita por Nico, um dos muitos interesses amorosos do protagonista de Eu Sou Michael para ele, num momento que marca a virada da personagem, quando o ex-ativista gay acabara de revelar que não se identifica mais como homossexual. A história, por si só, é bastante interessante, mas a realização deste filme é um equívoco completo. O diretor Justin Kelly e o produtor Gus Van Sant são abertamente homossexuais, assim como o coprotagonista, Zachary Quinto, e o ator que faz o papel-título, James Franco, é provavelmente o mais gay friendly da história recente de Hollywood. Então por que diabos fazer um relato biográfico do homem que desistiu a homossexualidade que exerceu durante toda a vida, inclusive lutando ativamente contra o preconceito e pela igualdade, para se dedicar à religião e passar a condenar os gays em nome de Deus? Qual é a lógica de talvez para supostamente fazer as coisas com imparcialidade conduzir o filme com uma apatia quase condescendente para com o protagonista, como se estivessem abalizando suas atitudes? Eu Sou Michael é uma punhalada nas costas do movimento gay; um desserviço para jovens em crise por terem se descoberto homossexuais, como alguns retratados pelo filme; uma propaganda inusitada de igrejas fundamentalistas; uma heresia surgida no seio da própria comunidade. E se não esses não fossem motivos suficientes, é um filme raso (por buscar esse distanciamento) e chato para caramba.

As Fábulas Negras

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[As Fábulas Negras, Rodrigo Aragão, Joel Caetano, José Mojica Marins e Petter Baiestorf, 2014]

Falta aquele acabamento nos roteiros, embora as três últimas histórias sejam muito bem estruturadas, mas a mera existência de um projeto como As Fábulas Negras é digno de nota. Combatente do cinema de horror brasileiro, Rodrigo Aragão comanda um filme em episódios baseados em personagens do folclore nacional – das lendas da floresta aos mitos urbanos. Tudo feito na unha, sem muitos recursos, mas transbordando criatividade e um amor forte pelo cinema de gênero. Os cinco episódios são costurados pela história dos quatro meninos que vão brincar na floresta e relatam, uma a uma, como surgiram as lendas do monstro do esgoto, do lobisomem, do saci e da loira do banheiro, nesta ordem, além da história de uma mulher que fez um pacto com o demônio, que encerra o filme. Embora a ideia seja bastante simpática, o tom de comédia das intervenções dos meninos, que como atores deixam muito a desejar, quebra um pouco a expectativa para com os contos de terror. O primeiro, dirigido por Aragão, é o menos impactante, mas abre espaço para o assinado por Petter Baiestorf, que embora tenha um elenco bem ruim, traz uma excelente cena de transformação do lobisomem. As coisas ficam bem melhores no episódio do mestre José Mojica Marins, uma crítica nada sutil ao fundamentalismo religioso, que embora tenha suas fragilidades entrega um roteiro mais redondo. O melhor bem a seguir, com a história da loira do banheiro, contada com muitos sustos por Joel Caetano. Ótimo trabalho de maquiagem também. A sacada final é boa, misturar os garotos da floresta com uma das histórias, também dirigida por Aragão, esta bem mais criativa, que ajuda a manter o nível acima da média.

Lúcifer

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[Lucifer, Gust Van den Berghe, 2014]

Lucifer é parte final de uma trilogia de filmes de temática religiosa do diretor belga Gust Van der Berghe e conta a história da passagem do anjo recém-caído por uma espécie de paraíso na Terra, uma vila mexicana, onde o tempo passa sem pressa e onde o então futuro “príncipe das Trevas” resolve brincar com a vida de uma das família que moram no local. Den Berghe cria um formato específico de projeção, o “tondoscope”, em que a cena inteira é vista dentro de uma esfera, como se enclausurasse as personagens na íris do espectador, o que dá uma particularidade visual ao filme, inspirado por pinturas dos séculos XV e XVI e vagamente adaptado de uma peça escrita já no século XVII. O formato curioso pode ser um pouco cansativo visualmente, mas serve bem para dar a ideia de que o paraíso não é um lugar para todos. O diretor acerta no tom, entre o farsesco e o místico, embalado por melodias da época, um tanto macabras, que acompanham a arquitetura do plano de Lucifer, ainda visto como um anjo pelas pessoas. O filme se transforma, então, num conto moral que faz uma reflexão sobre os abusos da religião e sobre a fé cega.

Paz e Amor

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[Love & Peace, Sion Sono, 2015]

Uma fantasia natalina ou uma homenagem ao cinema dos kaijus, os monstros gigantes japoneses? Um musical multicolorido ou uma alegoria crítica ao mercado fonográfico e ao culto à celebridade? Em mais um capítulo ousado de sua carreira, o japonês Sion Sono faz um filme limítrofe entre gêneros e tons, que mora naquele intervalo muito complexo para mente ocidental onde riso e choro se confundem e o exagero é forma de expressão. Paz e Amor é uma obra tão particular que dificilmente terá muita chance fora do Japão. Ou mesmo dentro deles. O diretor faz um esforço impressionante para criar uma fábula onde brinquedos ganham vida e animais podem falar, mas, num mundo cheio de cenas em CGI, os efeitos simples, que têm por base o movimento das marionetes, atrai mais gargalhadas do que olhares encantados. A maneira despudorada como Sono se permite namorar o ridículo é libertadora. E “Love & Peace”, a música, é uma das melhores do cinema neste ano.

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