Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 13

À Tarde

À Tarde EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Na Ri Xia Wu, Tsai Ming-Liang, 2015]

Faz dois anos que Tsai Ming-Liang anunciou sua aposentadoria e, desde então, entre curtas, médias e longas, fez mais 5 filmes. Diante de tanta produção remanescente, é difícil lembrar que a proposta de À Tarde é um encontro de despedida entre o cineasta e seu parceiro de toda a vida, o ator Lee Kang-Sheng, estrela de todos os seus filmes. O registro desse evento é feito da maneira mais simples possível: os dois sentam em cadeiras colovcadas uma ao lado da outra numa casa em ruínas, com vista para uma floresta. E lá, durante mais de duas horas, esses dois homens apaixonados um pelo outro falam sobre seus caminhos, suas ambições e afeições. Os dois revelam detalhes de uma intimidade que ajuda a explicar a simbiose que vimos em filmes excepcionais como Vive L’Amour, O Buraco e Adeus Dragon Inn ao longo das duas últimas décadas. Kang-sheng começa visivelmente constrangido em se expor diante da câmera, curioso para um ator que despiu em tanto filmes de Ming-Liang, mas a nudez que ele evitava é a nudez do coração. O constrangimento do ator tem muito a ver com a também visível insistência do diretor em receber um declaração “de amor” como a que está fazendo. Esse embate é longo porque Kang-Sheng é resistente e, nos intervalos dessa discussão, entendemos uma grande história de amor.

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois

Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, Petrus Cariry, 2015]

A trilha sonora, pesada, solene, anuncia a tensão que rege todas as relações em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois. No novo filme de Petrus Cariry, Sabrina Greve é uma mulher que não está mais assombrada com os fantasmas do passado, mas guarda um enorme ressentimento em relação aos fatos que determinaram sua história. Numa interpretação rígida e dura, a atriz dá forma a uma personagem que não consegue mais se conter diante do peso da história e decide reencontrar o pai, que está velho, com a saúde bastante debilitada, para acertar as contas de um relacionamento frio e distante, marcado pelas mortes da mãe e do irmão da protagonista. Petrus Cariry, que já havia impressionado em seus trabalhos anteriores, O Grão e Mãe e Filha, aqui é ainda mais rígido na construção das imagens, com planos bem estudados que mostram tanto o isolamento do local (uma fazenda no interior do Ceará) quando o abismo entre as duas personagens principais. A fotografia tem cores fortes, mas prefere os tons escuros, quase que transcrevendo os sentimentos da protagonista. Cariry nunca se esquiva de mostrar o ressentimento que Clarisse carrega. Um sentimento que cresceu e ficou silenciosamente violento. Essa construção de personagem às vezes ganha tons excessivamente solenes, com a ajuda das imagens claustrofóbicas e da música tensa, quase que criando explicações didáticas demais sobre os sentimentos da protagonista. Mas como nunca trabalha numa intensidade diferente, o cineasta parece sempre coerente com seu projeto e com sua personagem, que só explode para o mundo através de um dos motores primais da vida, o sexo. É nessa belíssima e aterrorizante cena final que o sangue significa libertação.

A Colina Escarlate

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[Crimson Peak, Guillermo del Toro, 2015]

Embora insinuar pareça mais nobre do que mostrar na história do cinema de terror, a qualidade dos efeitos visuais atingiu um nível tão alto que os diretores parecem concordar que não há mais nada que esconder. Se isso é um ponto a favor na ambientação do suspense, isso depende de cada obra, mas no geral transformar um fantasma numa figura clara e recorrente diminui um pouco de seu charme. Os fantasmas de A Colina Escarlate se revelam desde as primeiras cenas. Por sinal, estes primeiros momentos do filme de Guillermo del Toro garantem alguns calafrios ao espectador, mas, abraçados com os mortos, seguimos em frente numa história que promete mais do que oferece. Del Toro é muito fiel à ambientação do filme, que se passa no final do século XIX. Mais do que uma reconstituição de época, o filme empolga com a construção perfeccionista de uma atmosfera que evoca o das grandes novelas de terror. Tudo é exuberante e grandiloquente e isso funciona em muitas instâncias, mas não segura a trama até o fim. Mia Wasikowska e Tom Hiddleston estão excelentes, mas Jessica Chastain trabalha na caricatura o tempo inteiro e está sempre um tom acima de todo o resto.

Kiri - Profissão Assassino

Kiri: Profissão Assassino EstrelinhaEstrelinha
[Kiri: Shogugyô Koroshiya, Koichi Sakamoto, 2015]

Koichi Sakamoto tem uma extensa carreira como diretor de filmes para a TV estrelados pelos Power Rangers, pelos Kamen Riders e pelo Ultraman. Essa bagagem num produto de ação feito para crianças e adolescentes ajuda a entender qual é o público de Kiri – Profissão Assassino. A ideia é bem interessante: pessoas comuns são contratados através de um site para cometer assassinatos. Quem topar fazer o serviço pelo menor valor, leva. Sakamoto cria uma dinâmica interessante em mostrar quem são estas pessoas e o porquê delas fazerem esse tipo de trabalho. Há uma boa sequência de cenas de ação, bem exageradas, mas condizentes com o universo que o filme apresenta. O problema maior é quando Sakamoto tenta dar um peso dramático ao filme criando a figura de um assassino psicopata que aceita os serviços por um real. Tudo relacionado a essa personagem carrega demais nas tintas e cria um embate com a frivolidade do projeto.

Longe Deste Insensato Mundo

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[Far From This Madding Crowd, Thomas Vintenberg, 2015]

Passam-se os anos e o melhor trabalho do dinamarquês Thomas Vintenberg ainda é o filme que o revelou, Festa de Família, marco zero do Dogma 95. Sempre interessado por temas polêmicos e conflitantes, como no recente A Caça, o cineasta resolveu agora mostrar uma nova faceta e adaptar um clássico da literatura inglesa, o maior sucesso da carreira de Thomas Hardy, Longe Deste Insensato Mundo. O livro, que já havia se transformado em filme algumas vezes anteriormente, sendo a mais célebre a versão de John Schlesinger de 1967, é um exemplo da literatura realista do fim do século XIX, que apostava numa visão mais fiel das personagens para que elas realmente representassem o comportamento da época. Vintenberg parece bem interessado nessa ideia e faz uma adaptação naturalista de Hardy, embalada por uma lindíssima trilha de Craig Armstrong e pelas belas imagens de Charlotte Bruus Christensen, que aproveita o cenário e a iluminação natural para compor a atmosfera para que a história se desenrole. Carey Mulligan encarna com propriedade sua Bathsheba Everdene, não muito diferentemente das jovens altivas que já interpretou, e o belga Matthias Schoenaerts, que trabalha cada vez mais em língua inglesa, consegue traduzir a sutileza de Gabriel Oak. Vintenberg acerta em escolher um tom solar para o filme, não se contaminando pelas muitas viradas dramáticas na história. O realismo de boa parte de seus longas encontrou nessa adaptação de um texto clássico um terreno mais fértil do que poderia se imaginar.

Micróbio e Gasolina

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[Microbe et Gasoil, Michel Gondry, 2015]

Pouco a pouco, Michel Gondry vai encontrando sua personalidade no cinema. Pouco a pouco porque depois de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, sua parceria com Charlie Kaufman, lançada há 11 anos, o francês demorou a fazer um filme realmente especial. O que se ensaiava em seu longa anterior, A Espuma do Dias, uma busca por um cinema comercial com assinatura, se cristaliza em Micróbio e Gasolina, o filme infanto-juvenil mais delicioso dos últimos tempos. E isso se deve principalmente aos personagens altamente complexos e completamente adoráveis interpretados por Ange Dargent e Théophile Baquet. Os garotos excelentes dão vida a Daniel e Théo, o Micróbio e o Gasolina do título, dois adolescentes que não fogem ao clichê do “descobrindo a vida”, mas cujo roteiro escrito por Gondry os livra de dezenas de lugares comuns com um texto inteligente e discussões sobre a vida tão profundas quanto as que acontecem frequentemente em filmes franceses para “adultos”. Gondry respeita a idade das personagens, mas nunca as subestima. Seus protagonistas são crianças inteligentes e isso não significa ser afetadas. As obsessões visuais do diretor se resumem à casa-carro que os dois constroem para sair pelo mundo. Curiosamente, depois que eles deixam a cidade o filme perde um pouco do impacto inicial, mas até aí o espectador já está encantado com os dois meninos que olham para a vida com mais maturidade do que seus pais, mas que sabem bem respeitar suas idades.

No Andar de Baixo

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[Un Etaj Mai Jos, Radu Muntean, 2015]

No Andar de Baixo revela uma certa crise do cinema romeno e não porque o novo filme de Radu Muntean seja ruim. Pelo contrário, é uma história bem interessante e bem contada, mas que obedece a uma fórmula cada vez mais massificante entre os cineastas daquele país: estilo documental, fotografia limpa, sarcasmo tímido, estrutura sem grandes manobras e uma crítica à burocracia e ao comportamento médio da sociedade romena. Tudo isso funciona bem no filme de Muntean, mas mostra um comodismo quase constrangedor. Seu longa anterior, Terça, Depois do Natal, era bem mais cheio de nuances ao contar a história de um homem com duas famílias. Aqui, o protagonista descobre que a vizinha do andar de baixo foi morta, mas resolve não revelar que a viu discutindo com outro homem. O diretor se concentra em tentar entender e desdobrar essa decisão do protagonista, mas não oferece muito além de um motivo “escondido” que o espectador já conhece desde que a polícia bate em sua porta. Desta vez, embora o registro seja preciso e apurado, falta personalidade ao filme.

O Peso do Silêncio

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[The Look of Silence, Joshua Oppenheimer, 2014]

Em 2012, Joshua Oppenheimer entregou ao mundo O Ato de Matar, documentário em que convida paramilitares responsáveis pelo genocídio de um milhão de pessoas na Indonésia a reencenar os assassinatos que cometeram sob o pretexto de estar livrando o país dos comunistas. É o maior filme de terror da década e um dos registros documentais mais assustadores já feitos. O impacto do longa foi enorme e Oppenheimer resolveu fazer uma espécie de continuação ou ainda um filme complementar. Se o primeiro longa aposta no encontro com os assassinos, que defendem orgulhosamente os crimes que cometeram e se sentem verdadeiras celebridades ao reconstruir as cenas das mortes, O Peso do Silêncio elege Adi, o irmão de uma das vítimas, como interlocutor com os criminosos. Ele utiliza sua profissão, de oftalmologista, para se aproximar dos assassinos e colocá-los contra a parede. Embora os encontros sejam bastante fortes, há um certo nível de maniqueísmo na condução de boa parte das cenas, desde a expressão sempre consternada do protagonista até o constrangimento de parentes dos paramilitares. A postura do filme é corajosa porque o governo que ainda domina o país é o mesmo que ordenou a execução dos contrários ao regime. Além disso, há cenas bastante tensas, uma bela construção visual e o longa ajuda a levantar muitas questões como papel da religião no conflito, mas em vários momentos Oppenheimer parece querer ganhar mais uns tostões em cima do seu filme anterior, para o qual este perde em impacto, como registro e, sobretudo, na originalidade.

A Rua da Amargura

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[La Calle de la Amargura, Arturo Ripstein, 2015]

Há muitos cineastas que passam todas suas carreiras tentando falar a linguagem das ruas, documentar a decadência do homem e chegar às profundezas da sociedade e não raramente chegam a registros estereotipados e simulacros imprecisos que revelam suas visões rasas ou distantes desse universo paralelo. Bastam algumas cenas de A Rua da Amargura para notar que Arturo Ripstein parece saber bem do que está falando. O preto-e-branco da fotografia ajuda a criar um ambiente genuinamente sujo, in lato e strictu sensu. As personagens tem sua ética corrompida pela situação de completa miséria em que vivem e Ripstein consegue capturar a essência maculada das histórias escondidas nesses becos, que abrigam velhos homossexuais enrustidos, anões que são astros de luta livre e prostitutas da terceira idade. Estas, interpretadas pelas veteranas Patricia Reyes Spíndola e Nora Velázquez, que lideram um elenco que ajuda a dar esse tom autêntico ao filme. Silvia Pasquel e Alejandro Suárez também têm performances especialíssimas. O filme funciona em muitas formas, mas, enquanto documenta essa realidade, num misto de melodrama tipicamente mexicano e cinema noir de cunho social, Ripstein faz um trabalho impecável. As coisas só ficam mais banais quando um crime é inserido à história e o filme se concentra mais em seu desenrolar do que em suas personagens. Mas, até lá, o cineasta veterano já havia nos entregado um pequeno estudo da alma humana.

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