Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 3

Green Room

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[Green Room, Jeremy Saulnier, 2015]

Green Room é a renovação do suspense americano. Difícil encontrar um filme que administre tão bem a tensão nos últimos cinco ou mais anos. Jeremy Saulnier, em seu terceiro longa, cria uma obra claustrofóbica e despudorada, sem compromisso algum com as expectativas do espectador, os nomes conhecidos do elenco ou com o protagonismo ou os perfis das personagens. Seu filme existe exclusivamente em favor da construção de um estado de suspense e ele não poupa curvas de roteiro para atingir seu intento, sem que elas sejam meros truques ou reviravoltas gratuitas. Ao situar a história em um clube noturno de punk rock no meio do mato, o diretor adiciona elementos de um universo muito específico, o que foge do lugar comum e potencializa as possibilidades de brincar com as situações. Mas Saulnier nem parece tão disposto a brincar. Seu maior objetivo é mexer com o lado primal de quem assiste ao filme. Essa é sua maior qualidade, embora Green Room ainda guarde alguma poesia – suja como qualquer música punk.

Os Irmãos Lobo

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[The Wolfpack, Crystal Moselle, 2015]

Eis um caso em que o evento real em si é mais forte do que a realização do documentário sobre ela, mas isso termina importando pouco em Os Irmãos Lobo. Durante um passeio na Quinta Avenida, em Nova York, a diretora Crystal Moselle descobriu a história impressionante do casal que manteve seus sete filhos confinados num apartamento por 14 anos e decidiu transformar o encontro num dos filmes mais assombrosos do ano. Nas várias visitas à casa da família Angulo, ela registra a obsessão dos pais pelo isolamento, o amor quase doentio dos filhos por filmes e tenta encontrar explicações para o funcionamento daquele núcleo familiar. Um dos maiores trunfos do filme é tornar o espectador tão íntimo daquela realidade que a estranheza das situações ganha um tom de parceria, como se os jovens Angulo nos convidassem a conhecê-los em seus momentos mais pessoais, da mesma maneira que as Bouvier Beale em Grey Gardens. A diferença é que Big e Little Edie estavam fascinadas em chamar a atenção de uma câmera e os Angulo, tão aficcionados por filmes, se encantam com a possibilidade de serem, eles mesmos, o cinema.

Mia Madre

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[Mia Madre, Nanni Moretti, 2015]

Dono de um acervo de filmes que passeiam pelo humor e pelo melodrama, Nanni Moretti, em seu último longa, parece mais interessado em realizar um grande melodrama, como fez com O Quarto do Filho. Embora Mia Madre seja cheio de comédia, o foco aqui é em como a protagonista, a ótima Margherita Buy, administra uma espécie de luto antecipado pela mãe, que está doente. É o filme mais familiar e pessoal do cineasta em muito, muito tempo e talvez sofra um pouco por causa de sua pequena participação como ator, como se Moretti entregasse a assinatura do projeto para Buy. Ela continua lindíssima e está tocante no papel da diretora que se despede gradativamente da mãe, sentindo as consequências disso no trabalho. O que enfraquece o longa são justamente as cenas das filmagens. A metalinguagem não funciona muito bem talvez por Moretti não ser o protagonista. O casamento das duas narrativas nunca é totalmente satisfatório e a entrada em cena da personagem de John Turturro, bastante exagerado, não ajuda muito. Ainda assim, Mia Madre tem uma delicadeza que poucos diretores conseguem ter quando o assunto é família.

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