Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 6

Boi Neon

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[Boi Neon, Gabriel Mascaro, 2015]

Num bate-papo pós-sessão, Gabriel Mascaro disse que um dos fundamentos do filme era criar expectativas para depois quebrá-las. Embora talvez esse não deve ser um objetivo, mas uma consequência, está nessa frustração de expectativas um dos maiores trunfos de Boi Neon, segunda ficção propriamente dita de Gabriel Mascaro. Propriamente dita porque seus documentários sempre circularam pela intersecção entre os dois gêneros, o que trouxe para seus roteiros ficconais uma naturalidade rara de se encontrar. A primeira grande negação de Mascaro é com o Nordestes idealizado. O filme nunca coloca seca, miséria ou a vida “pitoresca” do nordestino no centro da trama. Pelo contrário, isso praticamente não existe no filme, que se move em torno da personagem principal, um vaqueiro que sonha em ser costureiro, sem dar muita bola para as explicações ou os desdobramentos dessa situação. Iremar nunca tem a orientação sexual questionada. Por sinal, sua masculinidade é reforçada em vários momentos, seja na cena de sexo, seja na aliviada matinal, seja no banho coletivo. Mascaro examina o corpo de seu protagonista da mesma maneira que ele utiliza os corpos dos manequins que coleta para vestir suas criações. Juliano Cazarré está impecável: bruto e delicado ao mesmo tempo, com um sotaque pernambucano irrepreensível. Virou mesmo um grande ator. Ao seu lado, Maeve Jinkings interpreta uma caminhoneira sem trejeitos, discreta. O elo mais fraco do elenco é Vinícius Oliveira, que embora se esforce como o silencioso Junior raramente acerta no acento e fica apático durante a maior parte do filme. A quimíca entre o trio de atores profissionais com os dos vaqueiros que compõem o time principal de personagens é essencial para que Boi Neon funcione como um recorte de uma região que raramente consegue ser representada com tanto desprendimento.

Califórnia

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[Califórnia, Marina Person, 2015]

A estreia de Marina Person como diretora de ficção é uma simpática história de coming of age em que todos os elementos parecem estar no lugar, mas onde falta uma certa ambição. O objetivo central de Califórnia parece ser contar uma história do início dos anos 80, época em que a diretora era adolescente, coletando músicas e referências pop em geral para reproduzir comportamentos, condições e passar rapidinho pela situação política do país na época. Esse contexto musical se sobrepõe a tudo no filme porque é quando Marina está sendo mais nostálgica e pessoal. Pelo menos umas 15 canções escolhidas a dedo pela cineasta movimentam as cenas mais importantes do filme, como “The Caterpillar”, do The Cure, ou “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division (e tem Smiths, Cocteau Twins e Echo and the Bunnymen), e é nesses momentos em que Califórnia é mais sincero e o espectador se aproxima mais da história da jovem que sonha com a viagem para os EUA para encontrar seu tio preferido enquanto se envolve com dois garotos da escola. No mais, o filme não acrescenta muito a temas como “primeira vez” ou AIDS. O que realmente conta para Marina Person é a nostalgia de um tempo em que as músicas faziam mais sentido e as coisas pareciam bem mais simples.

Francofonia

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[Francofonia, Aleksandr Sokurov, 2015]

Aleksandr Sokurov aumentou o intervalo entre seus filmes de ficção. Se antes lançava novos trabalhos a cada um ou dois anos, nos últimos tempos passou a esperar pelo menos quatro para lançar Fausto e agora Francofonia. No filme, produzido e estrelado pelo Museu do Louvre, o cineasta russo exercita tanto sua faceta documental, que sempre foi bastante forte em sua filmografia, e a ficção propriamente dita, mas num formato bem mais convencional do que estamos acostumados a receber. Nada dos ensaios poéticos sobre arte, vida e história que permeavam Arca Russa, nem os retratos de época barrocos que ele fez em Moloch e Taurus. Desta vez, ele utiliza uma dramatização bem tradicional para falar sobre a aliança entre o diretor do museu, Jacques Jaujard, e o general nazista Conde Wolff-Metternich, que ajudou a preservar o Louvre durante a invasão alemã em Paris na Segunda Guerra. Por outro lado, a parte documental é bem quadrada, utilizando imagens de arquivo da maneira mais clássica possível para contar a história e não avança muito em dar uma dimensão mais poética ao assunto. Faltou arte a um filme que esta falando essencialmente de um reduto de arte.

Maravilhoso Boccaccio

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[Maraviglioso Boccaccio, Paolo & Vittorio Taviani, 2015]

Embora tenha uma ideia central que remete a um dos maiores clássicos da dupla, Kaos, inspirado em contos de Pirandello, Maravilhoso Boccaccio lembra mais os filmes de época que os próprios irmãos Taviani dirigiram nos anos 90, uma safra menos celebrada do que os feitos dos diretores na década anterior. Como no roteiro original de Aconteceu na Primavera ou na adaptação de As Afinidades Eletivas, de Goethe, as relações entre as personagens eram mais simples e a própria construção das histórias mais clássicas. Se os textos das fábulas, livremente inspiradas no Decameron de Giovanni Boccaccio, livro adaptado com mais assinatura por Pier Paolo Pasolini, são parábolas morais bem contadinhas que atendem às expectativas do espectador e remontam a uma certa zona de conforto para os diretores, falta ao filme a pungência de Pai Patrão ou A Noite de São Lourenço, dois de seus filmes mais celebrados, ou o risco de César Deve Morrer, seu trabalho anterior, cheio de fôlego e frescor, talvez sua obra mais particular.

As Memórias de Marnie

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[Omoide no Mânî, Hiromasa Yonebayashi, 2014]

Hiromasa Yonebayashi é o animador-chefe de todos os últimos trabalhos de Hayao Miyazaki. É ele que ajuda a dar unidade à obra do mestre dos Estúdios Ghibli, mas quando passa a cadeira de diretor os resultados ficam menos empolgantes. Depois de O Mundo dos Pequeninos, Yonebayashi assinou esse As Memórias de Marnie, adaptação da novela de Joan G. Robinson, sobre uma menina que vai para a casa dos tios, no interior, para cuidar da saúde e encontra uma criança misteriosa com quem faz amizade. Embora a história tenha contornos mágicos como todos os filmes de Miyazaki, falta ao pupilo a capacidade de brincar com a fantasia e dar aos elementos fantásticos um papel de protagonismo. Marnie é todo bem resolvido em termos de estrutura de roteiro, mas ao contrário do que o mestre fez em O Castelo Animado, quando também adaptou uma novela de uma autora ocidental, Yonebayashi não consegue transportar a história para o Japão com muito desprendimento e o filme não se livra de um certo sotaque anglo-saxão. Está cheio de belezas e qualidades, mas parece muito com uma espécie de romance feminino dos anos 70.

Mon Roi

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[Mon Roi, Maïwenn, 2015]

Políssia, embora tivesse algumas simplificações e soluções fáceis de roteiro, era um filme-painel ágil e bem interessante sobre a divisão da polícia francesa de proteção a crianças, com um elenco grande e bem dirigido pela atriz-que-virou-cineasta, Maïwenn. Mas o trabalho seguinte da francesa, seu quarto longa como diretora, tem resultados bem mais contraditórios. Se de um lado, busca retratar com o máximo de realidade possível os bastidores de um casamento conturbado, o filme não raramente invade os limites do histriônico e assume algumas posturas próximas bem questionáveis, namorando perigosamente com a misoginia. O filme se passa em duas linhas temporais paralelas: no presente, Tony acaba de sofrer uma acidente na montanha e vai para uma clínica onde vai se recuperar de uma perna lesionada. No passado, ela reencontra Georgio, um flerte da juventude, e os dois rapidamente engatam um namoro e um casamento. Como manda o clichê, o príncipe encantado esconde defeitos que só a convivência poderia revelar e, dia a dia, Tony descobre novos problemas em seu relacionamento. O grande senão de Maïwenn é como ela administra essa mudança nas personagens. Aos poucos, a diretora transforma Tony numa mulher histérica e Georgio, num canalha natural. Os estereótipos só não viram monstros maiores porque tanto Emmanuelle Bercot quanto Vincent Cassel são ótimos atores e estão muito bem em suas personagens quando o roteiro não os condena demais. E se Maïwenn é bastante tolerante com o marido, a diretora parece condenar a personagem da esposa, como se Georgio tivesse o comportamento de qualquer homem e se Tony não tivesse tido a força necessária para perceber e enfrentar isso.

Sangue Francês

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[Un Français, Diastème, 2015]

Somente após sete anos, o diretor Diastème voltou a assinar um longa-metragem, seu segundo. Mas a espera valeu a pena. Embora Sangue Francês tente dar conta de muita coisa em pouco tempo, este é realmente um trabalho forte em seu impacto e delicado em como registra a transformação de uma personagem sem recorrer a cenas catárticas e “rituais” de mudança. Marco é um jovem que integra um grupo neonazista que comete agressões físicas, psicológicas e humilhações a árabes e estrangeiros em geral pelas ruas de Paris. O cineasta é bem enfático nas cenas, de uma brutalidade chocante, mas consegue encontrar o tom exato para mostrar que a violência extrema do protagonista e de seus amigos é sua forma torta de expressão. Mesmo se aproximando tanto dessas personagens, Diastème nunca facilita as coisas para elas. Nos primeiros dez minutos de filme, o espectador já odeia Marco e seu grupo. É por isso que a construção da mudança do protagonista é tão bem feita. Ele começa a questionar aos poucos, e silenciosamente, seu comportamento e as coisas em que acredita. Diastème assumiu um risco grande com a maneira como conduz as coisas porque o filme que começa em ebulição realmente perde o punch à medida em que Marco se transforma. Mas o efeito é válido porque o filme muda junto com o protagonista. Há um certo clima de lição de moral no ar, mas que o diretor dilui na falta de catarses. A pretensão do filme talvez seja querer personificar em Marco a mudança de postura da França, o que fica meio evidente em várias cenas ao longo do filme. Mas, dessa maneira, “o francês” do título original e o “sangue francês” do nome internacional passam a fazer bastante sentido.

Stop

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[Seu-top, Kim ki-duk, 2015]

Kim ki-duk, o coreano que todo mundo adora odiar – e que geralmente faz por merecer – ataca novamente. Desta vez, o diretor de Time, Pietà e Moebius se muda para o Japão e utiliza a tragédia na usina nuclear de Fukushima para lançar um manifesto contra o desperdício de energia em todo o planeta, com direito a créditos com números sobre o assunto no final. Tudo bem, caso a realização não fosse tão tosca. O primeiro problema, como de praxe, é o roteiro: ki-duk cria personagens bidimensionais, completamente desinteressantes, é simplório demais em tentar explicar suas motivações e parece incapaz de criar diálogos minimamente decentes. A escolha dos protagonistas também não ajuda: Tae-woong Eom e Ryeowon Jungum formam casal apático, impossível de se defender. É uma tortura acompanhar sua via crucis pelo inferno do cruel mundo de hoje, como quer Kim ki-duk, cheio de conspirações governamentais e um fatalismo dominante. Seu grito de alerta ambiental parece tão tosco quanto o resto de seu cinema, à exceção de Casa Vazia, e tão desonesto quanto alguém que acabou de descobrir contra o quê é o protesto, mas já chegou com um cartaz.

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