Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 8

Grandma

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[Grandma, Paul Weitz, 2015]

Paul Weitz tem uma trajetória interessante no cinema. Começou dirigindo uma comédia popular adolescente, passou por um pequeno drama, atualizou uma franquia de sucesso, iniciou outra fracassada e agora foi às raízes do cinema indie americano. Grandma é um filme bem clichê. Tem todos os lugares comuns dos dramas familiares sobre parentes que têm muitas diferenças a resolver. Tem todos os vícios dos filmes independentes americanos, quilos de trilha sonora melancólica, personagens fora da casinha e uma tentativa ingênua de querer quebrar todas as expectativas. O ponto forte do filme é, sem dúvida, sua protagonista. Lily Tomlin está muito à vontade como a vovó lésbica, intelectual e alternativa que é procurada pela neta que quer fazer um aborto. Tomlin almoça a personagem com farofa, está deliciosa e cheia de vitalidade em todas as cenas e dribla a mesmice do roteiro com muita propriedade.

Já Sinto Saudades

Já Sinto Saudades EstrelinhaEstrelinha½
[Miss You Already, Catherine Hardwicke, 2015]

Filme de doença alto astral virou uma espécie de gênero do cinema nos últimos tempos. De A Culpa é das Estrelas até Eu, Você e a Garota que Vai Morrer, muitos títulos se aventuram por esta missão. Já Sinto Saudade se encaixa perfeitamente nessa vertente: é um longa solar sobre uma mulher solar que descobre estar com câncer. E também é um filme sobre uma amizade de mais de décadas. Catherine Hardwicke passa por todas as etapas do processo da doença – descoberta, tratamento, despedida – com eficiência e sensibilidade, mas o filme nunca se mostra especial ou orginal. Escalar Toni Collette e Drew Barrymore é jogo baixo porque elas são provavelmente as atrizes mais legais do mundo e ninguém quer vê-las sofrer.

Ruth & Alex

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[5 Flights Up, Richard Loncraine, 2014]

Ruth & Alex parece um daqueles filmes para pagar as contas ou garantir a cota para produções estreladas/destinadas à terceira idade. Diane Keaton e Morgan Freeman mereciam bem mais do que um drama genérico sobre o valor que damos a nossa própria história e sobre a força do indivíduo diante do sistema. Ainda que seja simpático, o filme de Richard Loncraine – saudades de Ricardo III – entra num esquema de alternar humor e melodrama extremamente comum para este “gênero” de filme. Os flashbacks são completamente dispensáveis e só criam uma barriga desnecessária para algo que já estava bem engessado.

Short Skin

Short Skin EstrelinhaEstrelinha½
[Short Skin, Duccio Chiarini, 2014]

Short Skin revela uma vontade enorme de fazer um típico filme indie americano em plena Itália. Do protagonista magrelo e tímido ao uso meio exagerado de uma trilha melancólica com canções de bandas independentes, o longa de Duccio Chiarini incorpora os trejeitos do gênero ao cotidiano de uma típica família italiana. O roteiro trata uma operação de fimose como uma esquisitice médica e segue empurrando o protagonista por situações simples que se tornam mais complexas apenas por causa dele, outra máxima do filme indie (a irmã espertíssima é mais uma). O filme é simpático, mas nunca se arrisca, numa mostra alguma assinatura e acredita demais na fofura de tudo aquilo.

Transtorno

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[Maryland, Alice Winocour, 2015]

O segundo longa da diretora Alice Winecour consegue traduzir bem o trauma de um ex-soldado que volta da guerra, mas acha que ela continua a sua volta. A história não é das mais originais, mas Winecour consegue retratar os problemas psicológicos do protagonista num filme claustróbico e angustiante. Principalmente porque não existe um inimigo à vista ou um motivo evidente. Matthias Schoenaerts defende bem a personagem que se transforma no segurança pessoal da esposa de um homem rico. A mansão onde acontecem a maior parte das cenas ajuda a dar a estabelecer o clima de terror e os delírios do protagonista ganham proporções ainda maiores nesse ambiente desolado. Embora não seja especialmente um grande filme, Transtorno dá conta do recado tanto na construção da ambiência quanto na tarefa de funcionar enquanto thriller.

Truman

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[Truman, Cesc Gay, 2015]

Assim como o filme de Hardwicke, Truman, do catalão Cesc Gay, tenta olhar para seu protagonista doente sem comiseração. Um dos trunfos do filme é apontar o foco para o momento de descoberta da gravidade do problema em vez de mostrar o processo gradativo de sofrimento da personagem. Truman também é um “filme de Ricardo Darín”, quase um subgênero cinematográfico que passeia pelo agridoce com muito humor e algumas delicadezas para agradar um público mais velho que geralmente associa esse tipo de filme a uma obra de arte. Embora mantenha a sobriedade e o equilíbrio durante um bom tempo, Gay comete alguns deslizes melosos aqui e ali, como na cena em que o protagonista chama os amigos para fazer uma “grande revelação”. O resultado fica fragilizado, mas ainda é honesto. A química entre Darín e Javier Cámara funciona muito bem.

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