A Forma da Água

A Forma da ÁguaGuillermo del Toro é um dos maiores guardiões de monstros, fantasmas e bestas mitológicas no cinema atual e A Forma da Água respira esse amor pelo fantástico até debaixo d’água. A paixão do diretor está em cada frame, em cada poro do filme, em cada bolha de ar liberada pelas guelras do protagonista, no extremo cuidado com que o cineasta embala sua fábula de amor, da direção de arte estilizada às melodias harmoniosas de Alexandre Desplat. É inegável o esforço que Del Toro faz para dar corpo a suas obsessões no melhor dos sentidos. Sua intenção de homenagear esse imaginário de invenção é e parece bem genuíno em sua obra cinematográfica e nesse filme em especial. Sempre verdadeiro, mas quase nunca espontâneo.

Por mais que água seja turva, por mais que a fotografia seja escura ou que a personagem principal mostre os seios e se masturbe em uma das primeiras cenas do filme, ou seja, por mais que tente “sujar” este conto romântico, quase que fazendo um statement de “isso é um filme de monstro”, del Toro faz várias concessões ao sistema para tornar sua obra não apenas palatável para os gostos mais variados e isso, invariavelmente, passa por um excesso de estilização do filme. Não que o cinema precise ser naturalista para ser válido e relevante, mas o que se torna visível e talvez ocupe um espaço maior do que deveria neste filme é uma vontade deliberada de criar uma obra-prima “torta”.

A Forma de Água é um filme de monstro, mas del Toro parece tentar equilibrar a suposta fragilidade desta natureza, de filme de monstro, com subtextos tão intensos quanto a preocupação estética do longa. Como se o filme precisasse ser mais do que é para alcançar um patamar mais nobre. A partir de determinado momento, a história contada por del Toro é uma história de minorias reunidas em prol de um bem maior. Seu heróis são uma criatura aquática, uma mulher muda, um homossexual, uma mulher negra e um estrangeiro. Seu vilão, um torturador tradicionalista que representa “o sistema”, interpretado na base da caricatura. Há ótimos atores em jogo e uma habilidade em coordenar esses movimentos, mas o esqueleto “do bicho” fica exposto.

A Forma da ÁguaO resultado – embora sempre simpático e quase sempre encantador – parece artificial. O problema passa longe de falta de talento. Na verdade, há talento de sobra nesse projeto. A questão é que sobra por toda parte. O excesso incomoda, seja visual, seja de tom. É tanto cuidado com a plástica que o filme parece de plástico em alguns momentos e o perfeccionismo de del Toro em tentar criar uma obra “pura” dentro desse universo vai de encontro à essência falível e subversiva do conto de horror. Há um certo desacerto entre querer manter a essência de um estilo e idealizá-lo até que ele vire outra coisa. Há um confronto aí, mesmo que haja um apetite enorme, muitas boas intenções e que o resultado seja “lindo”.

A Forma da Água EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
The Shape of Water, Guillermo del Toro, 2017

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