O segredo de Hereditário talvez esteja no próprio título. Afinal, nós somos construtos do que herdamos de nossos pais, de nossos antepassados, da história que nos cerca, da história que nós próprios cometemos. O horror já pode estar dentro de nós e o longa de estreia de Ari Aster tenta mostrar, usando táticas das mais diversas, como esta herança do mal ecoa nos mais variados níveis das nossas vidas. Mas, ao mesmo tempo em que remonta às fundações e ao princípio ativo do gênero, o diretor faz questão de se filiar aos cinemas contemporâneos.

A principal tática para isso é eleger elementos sensoriais para desenhar a linha narrativa da história da família comandada por Toni Collette. Durante boa parte do filme, a iminência do que está por vir é apresentada por insinuações, climas, uma trilha sonora ora minimalista, ora intrusiva de Colin Stetson, uma fotografia milimetricamente calculada para explorar o cenário de todas as formas, rompendo com as expectativas de quem pode esperar um filme de fantasmas tradicional e buscando entender o horror como um reflexo das angústias e incômodos dos personagens.

HereditárioEm certo sentido, Hereditário parece reverberar a angústia da maternidade. Aos poucos, a protagonista vai se revelando e sua relação com seus filhos se torna tornando mais clara. A transformação da personagem aos nossos olhos insinua que os acontecimentos do longa, que Aster habilmente coloca num estado nebuloso em que o que é real ou é delírio não é facilmente detectado, podem ser metástases do que Annie sente, acha e quer, o que justificaria o uso de uma série de simbologias ao longo do filme. As miniaturas que a personagem confecciona com detalhes impressionantes são assustadoras por si só, como se, além da representação, se tornassem simulacros da vida real.

A interpretação de Toni Collette é fundamental para que este aspecto psicológico seja explorado como se deve. Ela opera no limite do exagero, como se os parâmetros estivessem fora de controle, numa clara metáfora do que acontece com Annie. Os duelos entre ela e ótimo Alex Wolff, que vive seu filho mais velho, estão entre os melhores momentos do filme, sempre tensos, tristes e perturbados. É como se a chave do longa tivesse sido revelada, mas Aster não quer que as coisas sejam tão simples assim, talvez porque enxergue que não existe apenas uma explicação para cada questão.

Hereditário está longe de ser uma coisa apenas. Se, de um lado, o filme desafia o cinema de horror tradicional, partindo para outras abordagens, do outro está completamente ligado a ele. Desde as primeiras cenas, Aster parece namorar também o ocultismo e, embora discuta outras coisas no meio do caminho, retorna para esse namoro com o fantástico, com as raízes do gênero em escolhas sem o mínimo pudor, kitsch, nem um pouco sóbrias, nada interessadas em parecer realistas. O filme ecoa o terror dos anos setenta, mais explícito, mas como se fosse ao contrário, pelo avesso, abusando do absurdo e do farsesco e se encerrando mais complexo do que qualquer um poderia imaginar.

Hereditário EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
Hereditary, Ari Aster, 2018

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