Homem de Ferro 3

Os recentes ataques na maratona de Boston mostram que, no mundo atual, há uma necessidade cada vez maior de se exibir vilões. A sociedade midiática em que vivemos exige a personalização do mal. Ele precisa ter rosto, voz, precisa se mostrar um para se mostrar atingível. Um dos maiores acertos da Marvel no cinema é como o estúdio conseguiu inserir seus personagens num contexto contemporâneo, credibilizando suas aventuras ao colocá-los frente a perigos reais, palpáveis, que normalmente passam pelas ideias do terrorismo. Por isso mesmo, toda a concepção por trás do personagem do Mandarim, o antagonista de Homem de Ferro 3, é excelente. Ele é o vilão do mundo pop, o mal reconhecível, uma estrela da mídia às avessas, um mito do horror.

O Mandarim não é apenas o melhor vilão dos filmes do Homem de Ferro, mas é o único entre esses personagens tratado com relevância. O roteiro do filme explora sua identidade em várias camadas, sem medo de arriscar, deixando Ben Kingsley à vontade para brincar com quiser com o personagem. Shane Black, que substitui Jon Favreau na direção, rouba espaço no roteiro mais uma vez centrado no magnetismo de Robert Downey Jr., novamente excelente, para criar um personagem tão rico quanto o herói. O Homem de Ferro, por sinal, perde definitivamente o protagonismo do filme para Tony Stark. Este é um filme sobre o homem por trás da máscara de ferro, pelo aspecto dramático das crises de ansiedade do personagem, quanto pelo aumento das cenas de humor, tão fortes quanto no primeiro trabalho de Shane Black como roteirista, Máquina Mortífera.

A comédia, que foi fundamental na composição do personagem no cinema, ganha um tratamento especial nas cenas em que Downey Jr. contracena com o pequeno Ty Simpkins, dono de um currículo que inclui trabalhos com Steven Spielberg, Sam Mendes e Todd Field. Os diálogos ferinos entre Stark e Harley, personagem do garoto, são deliciosos na velocidade e na intensidade. É a melhor dupla do ano até o momento. Apesar das cenas de ação de Homem de Ferro 3 serem realmente muito boas, com destaque para o ataque à mansão e o resgate do avião, este é um filme que se destaca mesmo pela qualidade de seu texto. Isso abre espaço para belas interpretações, como a de Gwyneth Paltrow, que ganha até a chance de brincar de super-heroína; Jon Favreau, que longe da direção investe num timing cômico perfeito para seu Happy; e Guy Pearce, que desenvolve bem seu personagem canastrão.

Mais do que ser um filme redondo, Homem de Ferro 3 é um belo pé direito para o início da chamada Fase 2 da Marvel nos cinemas. Black costura os eventos de Os Vingadores à trama, justificando tanto o caráter solo deste longa quanto a possibilidade de novas parcerias entre os heróis. O plano da editora, ou do estúdio, para seus personagens na tela grande é calculado com impressionante coesão, mas mirando nos valores individuais dos filmes e dos heróis, conversando com um público cada vez maior, mas sem fazer grandes concessões. Este foi o último longa de Robert Downey Jr. sob contrato. O que está por vir precisa ser renegociado e a Marvel tem como norma valorizar personagens e não intérpretes. Eis um dilema de verdade que heróis do mundo real precisarão resolver para impedir a vitória do mal.

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[Iron Man Three, Shane Black, 2013]

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