Os filmes de Apichatpong Weerasethakul não oferecem respostas fáceis, mesmo para o espectador assíduo de festivais de cinema, acostumado a discursos e estruturas pouco convencionais. Mas o nível de experimentação do tailandês nunca havia ganho a dimensão que vemos em Hotel Mekong, um filme-ensaio em que o diretor passeia por múltiplas camadas de realidade, fragmentando, ou melhor, pulverizando qualquer possibilidade de se estabelecer uma linha narrativa.

A anarquia que toma conta do filme deriva de sua proposta: o cineasta decide usar o local, um hotel às margens do rio que separa a Tailândia do Laos, como cenário para ensaiar “Ecstasy Garden”, um filme que escreveu anos atrás. Mas Apichatpong não está mais interessado em apresentar a história da mãe vampira e de sua relação com a filha humana de uma forma linear. O diretor viu no material uma oportunidade de investigar o processo de criação de uma linguagem cinematográfica diferente.

Perto de Hotel Mekong, os filmes mais conhecidos do diretor, como Mal dos Trópicos e o vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, trabalhos elaborados e cheios códigos e simbologias, são um cinema mais perto do convencional. Ambos os filmes, mesmo diante de sua complexidade em trabalhar a memória e o fantástico, são realizados com um apuro visual e sonoro que traz um conforto inesperado ao espectador. São o ponto de apoio de quem assiste para receber o turbilhão de signos que o diretor oferece.

O novo filme rejeita esse conforto. Rodado em digital como se fosse um filme caseiro, parece retirar dos improvisos e das locações a matéria-prima para tecer sua estrutura. As inundações no rio Mekong servem como uma metáfora para o encontro dos níveis de representação da realidade que o filme oferece. É como se as águas fora de controle tivessem invadido as filmagens daquela obra que nunca existiu, abrindo espaço para a permissividade narrativa, varrendo a necessidade de se explicar. Compra a ideia quem quiser. Ou quem puder.

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[Mekong Hotel, Apichatpong Weerasethakul, 2012]

Texto publicado originalmente no Uol.

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