Eric Bana, Nick Nolte, Jennifer Connelly

Existem dois tipos de pessoas: as que liam quadrinhos quando eram crianças e hoje são adultos legais e as que não liam e hoje não são tão legais quanto poderiam ser. Ang Lee é um cineasta com um grande talento, indicado quatro vezes ao Oscar e vencedor de uma estatueta pelo épico O Tigre e o Dragão. Ang Lee tem apenas um problema: ele não lia quadrinhos quando era criança e por isso não é tão legal como poderia ser.

Lee foi o escolhido para dirigir a versão para o cinema de um dos mais complexos personagens da Marvel Comics, o Hulk. A enorme criatura verde é uma versão raivosa do cientista Bruce Banner, que foi atingido por radiação gama num acidente. O Hulk é um monstro. Um ser completamente dominado pela fúria e sem controle das próprias emoções. Um ser solitário que vaga pelo mundo que tem medo dele e que, como sempre acontece com as diferenças, não sabe como absorvê-lo.

Ang Lee queria mostrar tudo isso em seu filme e não reproduzir a visão mais primária de que o personagem é apenas uma máquina de destruição. Justifica sua estratégia modificando a origem do Hulk, o que seria entendível se o modo como essa transformação ocorreu fosse abalizada pelo roteiro. Mas o escritor James Schamus, que adora mergulhar na alma humana (e que já fez isso muito bem), também não tem intimidade com os quadrinhos. A tentativa de deixar a história séria, repleta de implicações psicológicas, com pesadelos e visões explicativas, não consegue cumprir seu papel e beira a infantilização. Sabe quando se tenta explicar demais para o espectador entender? É assim…

Somente quem lê quadrinhos sabe das infinitas possibilidades deste universo. Consegue enxergar e trazer da memória as nuances múltiplas dos personagens. Consegue entender que, muito mais que superpoderes ou batalhas fantásticas, o que conquista os leitores são as histórias dos heróis. São os homens comuns por trás das máscaras ou das faces transformadas. A estética e a linguagem das HQs revolucionaram a literatura e a arte no último século. Transpor essa revolução para outro campo é difícil.

Apesar de cenas patéticas como a dos cães mutantes (quase tão medonhos quanto o visual grunge do Nick Nolte), existe uma boa intenção, mas Hulk, o filme, é ingênuo. Cineasta e roteiristas tratam ingenuamente o tema, a história, os personagens. Tudo por falta de tato com os quadrinhos. A edição de Tim Squyres, que tenta homenagear o tempo inteiro as HQs, é boa, mas cai no exagero muitas vezes. A trilha de Danny Elfman começa sombria, mas descamba para temas africanos inexplicáveis.

Jennifer Connelly é, de longe, a melhor atriz do filme, comprovando que ator bom faz filme cult, faz papa-Oscar e faz Hulk também. E a criatura verde? A tão falada criatura verde, a maior polêmica do filme por sua excessiva virtualidade (apesar de apresentar expressões e movimentos impressionantes)? Surpreendentemente o Hulk digital é o que menos incomoda. Parece bem menos ingênuo que seus criadores.

Hulk EstrelinhaEstrelinha½
[The Hulk, Ang Lee, 2003]

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