A visão é o contato mais direto do ser humano com o mundo. É o que determina nuances, contornos e horizontes para suas impressões sobre a vida. O poder do olhar não tem limites. Ou tem. O limite pode ser a própria impossibilidade física. A discussão sobre esse tema já embalou belos momentos do cinema. E é a fotografia a porta de entrada para um filme. As cores, enquadramentos e movimentos de câmera são quem determina o ponto de vista do espectador em relação ao material filmado. Walter Carvalho é o mais importante diretor de fotografia do cinema nacional. Fez vários trabalhos com Walter Salles e também é o responsável pela plástica do belo Lavoura Arcaica (01), de Luiz Fernando Carvalho.

Walter Carvalho é um homem apaixonado pelo olhar. Essa paixão motivou o técnico a estrear como cineasta no documentário Janela da Alma, dirigido em parceria com João Jardim. Ele e seu companheiro entrevistam dezenove personalidades ligadas, de alguma forma, ao olhar. Janela da Alma é um filme de depoimentos, um filme de pessoas. Um estudo sobre como a visão determina o nosso contato com tudo que nos é externo.

A câmera-olho de Carvalho segue pelos depoimentos do músico alagoano Hermeto Paschoal, dos cineastas Wim Wenders e Agnès Varda, do neurologista Oliver Sachs (interpretado por Robin Williams em Tempo de Despertar) ou do fotógrafo franco-esloveno Evgen Bavcar, completamente cego. O escritor vencedor do prêmio Nobel, José Saramago, autor do maravilhoso Ensaio sobre a Cegueira é outro entrevistado ilustre. Mas o mais impressionante depoimento não vem de um cineasta famoso, de um escritor premiado ou de médico de projeção. Vem de um homem simples. Arnaldo Godoy é vereador em Minas Gerais. Ele nasceu com uma doença congênita e, desde cedo, teve que usar óculos com lentes pesadas. Aos 11 anos, mal enxergava. Aos 17, perdeu completamente a visão. Godoy, em poucas palavras, conquista o espectador com uma história de superação. É um homem comum que também é um herói. Uma criança que teve que enfrentar uma privação gigantesca, mas que nunca desistiu. Seu depoimento é o mais tocante, o mais simples e, por isso mesmo, o mais belo.

No conjunto, Janela da Alma guarda características muito formais de um documentário. É, de certa maneira, preso a regras. Nunca chega a ser inovador, nem pretende isso. É um documentário sobre o olhar, mas aposta no falar. É aí que existe a dicotomia. Num filme sobre a visão não se brinca com o que se vê. A forma é completamente esquecida em detrimento dos depoimentos dos personagens, que são muito bons – não há como e nem porque negar. São eles que definem o filme, que o deixam mais belo, mas apenas um pequeno passo além daquilo que vemos num programa de TV bem feito.

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[Janela da Alma, Walter Carvalho e João Jardim, 2001]

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