Kinatay

Kinatay parece querer dar conta do mundo. Logo na primeira cena a câmera do filme de Brillante Mendoza acompanha trêmula um jovem casal de sua casa até o local onde vão oficializar seu casamento. No meio do caminho, na mesma medida em que os segue, a câmera se distrai com tudo o que pode, do caos das ruas hiperpovoadas de Manila até uma tentativa de suicídio. Parece que a ideia é não deixar nada de fora, abranger o mundo de uma vez só, assim como na vida.

Mas a beleza quase inocente com que o filme apresenta seus personagens contrasta com o passo seguinte. Mais uma vez, assim como na vida, Mendoza introduz o outro lado do protagonista. O jovem Peping perde parte de sua pureza inicial em práticas ilegais que desencantam o espectador. Em seguida, ele mergulha, ainda que sem querer, num submundo perverso, que irá tentar corrompê-lo.

A mudança de tom é bem marcada pelos opostos mais óbvios, dia e noite. Mas na noite de Kinatay, o áudio assume as vezes da câmera na tentativa do cineasta de tomar o mundo para si. A partir daí, música, ruídos, vozes e todos os tipos de sons surgem juntos para oferecer um mosaico vivo que captura o que está a seu alcance. Esse trabalho torna a viagem de Dante do personagem muito mais real, muito menos óbvia.

As imagens e os sons de Mendoza indicam que qualquer ação é resultado de um conjunto de coisas. As cenas fortes de agressão, estupro e mutilação, filmadas da maneira mais elegante possível, têm um objetivo, que mora muito mais próximo da consciência do imprevisto como soma de movimentos, o curso natural da vida, do que da gratuidade. Assim como na vida, nem sempre é fácil dizer não. E nem sempre um “sim” revela tudo.

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[Kinatay, Brillante Mendoza, 2009]

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