Lamparina da Aurora

Lamparina da AuroraComo dar corpo ao que não está mais entre nós? Como materializar o que já ultrapassou o material? Como retratar o luto? Afinal, quem está mais morto: aquele que se vai ou aqueles que ficam?

Lamparina da Aurora não se propõe a responder nenhuma destas perguntas, mas oferece nuances para cada uma destas temáticas, invade o terreno da incertezas e retira delas o verdadeiro horror, o horror de não saber para onde seguir. Esta falta de determinismos, que talvez seja um dos maiores acertos do terceiro longa de Frederico Machado, curiosamente surge num filme milimetricamente pensado, um filme de terror sem sustos, que explora o gênero pelas bordas, investindo muito mais na maneira de desenhar um ambiente de dor do que em criar impacto junto ao público.

A sutileza da composição de imagens, assinadas pelo próprio Machado, junto ao silêncio dos protagonistas e ao impecável desenho sonoro, que já é um mérito antigo na obra do diretor, levam o filme à seara do fantasmagórico sem que ele se prenda a qualquer clichê do gênero. Desde O Exercício do Caos, o cineasta demonstra ser um manipulador talentoso dos elementos cinematográficos para contar uma história. Aqui, seu trabalho mais autoral, é quando estes elementos deixam de ser suporte para se tornarem a própria narrativa já que, ao espectador, não é concedido o direito a uma trama mais bem definida.

A complexidade da construção, no entanto, não se traduz numa obra fechada, secreta ou de difícil acesso porque, mesmo nas cenas mais sensoriais, existe uma simplicidade no modo como se organiza as coisas, de como se introduz cada elemento, como, principalmente, as poesias do pai de Frederico, Nauro Machado, lidas pelo próprio diretor, que servem como fio condutor para dar dimensão e direção ao vazio que move os personagens e, de certa forma, amarra a própria trama, que sem ela talvez não passasse dos fluxos de consciência.

É notável que, com tantas boas ideias executadas com uma identidade estética tão a serviço do conjunto, um corpo tão a serviço do cérebro e do coração, o longa venha de um estado tão distante de uma tradição cinematográfica, nunca por causa de suas potências, mas pelas dificuldades que qualquer filme, especialmente filmes como este, tem para ser gestado, financiado, produzido e parido.

A beleza de Lamparina da Aurora e sua maneira simples e complexa de retratar a perda e a ausência merecem uma visita ao cinema.

Lamparina da Aurora EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Lamparina da Aurora, Frederico Machado, 2017]

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