Leviatã

A gigantesca carcaça do Leviatã ainda assombra um vilarejo russo onde tudo e todos parecem estar condenados ao fracasso. O monstro marinho, descrito no Antigo Testamento, é a alegoria escolhida pelo cineasta Andrei Zvyagintsev para escancarar seu pessimismo em relação a seu país, um estado de descrença que persegue e se transforma em principal temática de seu cinema. Para o diretor, a corrupção se instalou na coração da Rússia e se espalhou como metástase pela política, pela justiça, pela igreja e pela moral. Um exército cruel e onipresente que cerca e atropela os elementos dissonantes. O novo filme do cineasta é como uma profecia bíblica que não guarda muita salvação para seus protagonistas. Nikolay enfrenta o prefeito da cidade, que quer tomar suas terras a qualquer custo. Sua recusa em ceder inicia uma série de tragédias. Zvyagintsev administra essas tragédias com certas doses de fatalismo, mas parece justificar a escala que utiliza para o desastre a cada entrelinha. Os capitães do mal mudam de nome, mas permanecem no poder. O diretor não poupa nenhum deles de suas culpas e ainda convida o espectador a acertá-los com um tiro de espingarda, mas ironicamente preserva aqueles que ainda não foram condenados pela “história”, mas estão presentes em cada parede.

Leviatã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Leviathan, Andrei Zvyagintsev, 2014]

Comentários

comentários

2 thoughts on “Leviatã”

  1. Chico, acho que talvez a referência direta do diretor seja o livro homônimo de Thomas Hobbes, e não propriamente a Bíblia. Ainda não vi o filme, mas o tema diz muito respeito à figura do Leviatã em Hobbes, analogia a um Estado onipotente e onipresente que, ao mesmo tempo em que lhe retira do estado de natureza (da guerra de todos contra todos), o insere num estado de submissão quase completa às instâncias de poder. Vale conferir. Abraço

  2. Depois de 4 sessões no cinema desde a Mostra de Sampa, acho que vou captando melhor o filme. Em uma primeira vista, é óbvia a referência ao Leviatã hobbesiano. Mas hoje vejo que o tom fatalista que permeia a obra aproxima-a da tragédia: a presença da Igreja dando um apoio mais do que moral ao governo sugere uma força superior, quase sobrenatural, comandando todos os destinos dos envolvidos, onde tudo está traçado. Uma viagem minha: se fosse uma comédia, seria muito parecido com “Um Homem Sério”, dos Coen.
    Em tempo: uma vez que o estupendo “A Ilha dos Milharais’ saiu da disputa pelo Oscar, acho que “Leviatã” tem uma cabeça de vantagem sobre “Ida”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *