Pedro Almodóvar talvez seja o melhor exemplo de cineasta cuja linguagem evoluiu. A última década refinou seu apuro estético e seus filmes se tornaram cada vez mais densos sem perder a característica mais fascinante de seu cinema: o escracho. Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe e Fale com Ela, embora eu goste mais do primeiro, seguiam um crescendo na direção que impressionava pelo rigor e pela maleabilidade. É por isso que Má Educação, o último filme do espanhol, é mais decepcionante do que propriamente ruim. É um filme que não se cumpre, um filme frouxo.

Almodóvar namora o projeto há muitos anos e guarda um carinho especial por uma história que é muito próxima da que viveu na época em que estudava num colégio interno. Um grau de envolvimento que pode ter se tornado prejudicial para o filme, fatal. É clara em todas as cenas e no desenvolvimento do longa a preocupação que o cineasta tem em não banalizar as discussões, em ser respeitoso com todos os personagens, em criar a sensação de incômodo necessário. Má Educação, então, vira um filme mastigado, fácil, sustentado numa estrutura de filme policial que nunca funciona muito bem.

Digna de nota mesmo é a coragem do mexicanozinho Gael García Bernal, que faz um filme em que seu personagem é sodomizado (tudo bem, é um filme de Pedro Almodóvar em que seu personagem é sodomizado), justamente no momento em que sua carreira internacional explode e ele chega a ser cotado para os prêmios do ano. Bernal, por sinal, está bem no papel (sobretudo quando faz Zahara), mas não há nada de espetacular em sua interpretação. Fele Martínez é fraco como o quê. Os atores ficam presos ao roteiro pouco ousado de Almodóvar. Roteiro que nunca acontece porque ele não sabe mais como ser irônico.

Por outro lado, Labirinto de Paixões, rodado há longínquos vinte e dois anos, segundo filme do diretor (segundo se a gente não considerar os filmes “não sérios” que ele fez antes), não tem pudores. Sem o peso de ser um grande mestre do cinema, Almodóvar se permitia completamente. Conta uma história absolutamente nonsense com um sarcasmo delicioso. Um filme livre de qualquer amarra com um elenco comandado pela maravilhosa Cecilia Roth, como uma ninfomaníaca que contracena com os personagens mais absurdos. O filme é da época em que o diretor não tinha vergonha de nada, nem de ser escatológico.

Labirinto de Paixões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Laberinto de Pasiones, Pedro Almodóvar, 1982]

Má Educação EstrelinhaEstrelinha½
[La Mala Education, Pedro Almodóvar, 2004]

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