Desde o início, o espectador tem plena consciência do que trata e de como termina Mar Adentro, novo longa de Alejandro Amenábar. O filme conta a história real do espanhol Ramon Sampedro, paraplégico que ficou famoso depois que sua morte – há alguns anos – reacendeu o debate sobre a eutanásia. Como o foco não é manter o suspense em torno de seu desfecho, o filme assume o bastidor como narrativa e centraliza suas ações no quarto onde o protagonista viveu por quase três décadas. Esta postura é ao mesmo tempo corajosa e perigosa por parte do diretor.

Com as luzes sobre o particular, Amenábar teria todas as chances de invadir o terreno da pieguice e se resolver com o melodrama barato, cujas lágrimas são o objetivo maior. E diante de um tema polêmico, outra saída fácil seria o de tentar justificar a eutanásia, fazendo um filme apelativo, maniqueísta e arrogante, como A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, ou Fahrenheit 11 de Setembro, de Michael Moore. Mas Amenábar, melhor diretor que nunca, dribla com grande propriedade as iscas deixadas pelo clichê e, em vez de fazer um grande panfleto ou de carregar nas tintas de épico pessoal redentor, realizou o filme mais bonito do ano.

Mar Adentro é a história de uma família e do amor que seus membros sentem uns pelos outros, sobretudo por aquele que se torna o centro do grupo, Ramon. Na interpretação do gigante Javier Bardem, Sampedro não é um homem rancoroso, amargo ou mergulhado na melancolia. É um homem com uma idéia definida e muita paciência, que sabe sorrir, como o próprio personagem declara num de seus diálogos. E é esse retrato – longe de ser imparcial, mas anos-luz de caricatural ou raso – é o que dá o tom do filme. Amenábar caprichou na escolha do elenco (Mabel Rivera, a Manuela, é forte candidata a melhor coadjuvante do ano) e na bela, bela trilha.

Se era golpe, eu caí. O mais contraditório em Mar Adentro é que ele é um filme sobre a morte que sabe bem como defender a vida.

Mar Adentro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Mar Adentro, Alejandro Amenábar, 2004]
Direção, Montagem: e Música: Alejandro Amenábar.
Roteiro: Alejando Amenábar e Mateo Gil.
Elenco: Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas, Mabel Rivera, Celso Bugallo, Clara Segura, Juan Dalmau, Alberto Jiménez, Tamar Novas, José María Pou, Francesc Garrido.
Fotografia: Javier Aguirresarobe. Direção de Arte: Benjamín Fernadéz. Figurinos: Sonia Grande. Produção: Alejandro Amenábar e Fernando Bovaira. Site Oficial: www.mar-adentro.com..

rodapé:
Mar Adentro concorre a dois Oscars: filme estrangeiro e maquiagem (indicação inusitada para um filme em língua não inglesa). Merecia muito mais: Javier Bardem como melhor ator, Mabel Rivera como atriz coadjuvante, trilha sonora seria as mais imediatas, mas não seria (muito) exagero apontá-lo entre os melhores filmes e diretores.

O Luiz Gravatá, gente boa e colunista do O Globo, me pediu para fazer umas perguntas, enquanto blogueiro que escreve sobre cinema, sobre o Oscar para uma entrevista que ele faria com o José Wilker. As perguntas estão agora, on line no blogue dele. Ele só cometeu um pecado: disse que eu sou baiano. Apesar de morar na Bahia, nasci em Maceió, Alagoas.

nas picapes: Je T’aime Tant, de Julie Delpy.

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