Anna Paquin, Mark Ruffalo, J. Smith-Cameron, Matt Damon, Jennie Berlin

Margaret quase morreu na ilha de edição. Depois que foi rodado, o filme empacou em disputas judiciais entre financiadores, estúdio, produtores e o diretor. O processo de edição se estendeu por dois anos. A versão que chegou aos cinemas, com 150 minutos, nem é a planejada por Kenneth Lonergan. Tem 36 minutos a menos. Um imbroglio que quase nos privou de um filme raro, em que nenhum personagem ou situação se resolve na primeira camada.

A estrutura do longa-metragem, embora não se revele tão claramente assim, é cíclica. A cada rodada, descobrimos uma nova característica da protagonista e a imagem que temos dela vai se transformando à medida em que surgem novos elementos em seu cotidiano. Lisa Cohen nos surge como uma adolescente típica que mora em Nova York com o irmão pequeno e a mãe, uma atriz de teatro, para depois revelar um comportamento obsessivo.

É uma das mais elaboradas construções de personagem que apareceram nos últimos tempos. Anna Paquin, na melhor performance de sua carreira, consegue transitar por todos os humores e facetas da protagonista. O que move Lisa – e a trama do filme – é um acidente de trânsito, no qual ela teve uma participação involuntária e que se torna uma ferida da qual ela não consegue se livrar e, mais tarde, uma desculpa para muitas  de suas ações.

A cena do acidente é brilhante, de um impacto devastador, sobretudo graças à interpretação dificílima de Allison Janney. O elenco de apoio, por sinal, tem vários atores em momentos inspirados, como Mark Ruffalo, Jeannie Berlin e, principalmente, J. Smith-Cameron, que vive a mãe – e uma das questões mais abertas – da personagem principal.

Lonergan relativiza os objetivos e motivações de Lisa, cujo papel de heroína ganha contextos tão complexos quanto sua personalidade, que só vem à tona explicitamente nos debates em sala de aula que servem de metáfora para todo o filme. A busca de Lisa por “justiça” tem um caráter tão ou mais interno do que externo.

Nada é fechado em Margaret. Nenhuma leitura é fácil ou se resolve no objeto inicial. Todas os diálogos têm ruídos. Muitas frases nem se completam, com um personagem falando por cima do outro, o que torna as conversas muito mais verossímeis em vez da marcação usual.  Talvez essa “poluição” talvez reflita a tumultuada história do filme. Certamente reverbera a personagem mais complexa que o cinema norte-americano pariu recentemente.

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[Margaret, Kenneth Lonergan, 2011]

 

Comentários

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2 comentários sobre “Margaret”

  1. Gostei muito dos personagens também. E fiquei imaginando como seria o director’s cut. Tesão em diversas camadas pela Paquin e seus dentinhos separados. Ela está vertiginosa no filme.

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