Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 4

Boi Neon

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[Boi Neon, Gabriel Mascaro, 2015]

Num bate-papo pós-sessão, Gabriel Mascaro disse que um dos fundamentos do filme era criar expectativas para depois quebrá-las. Embora talvez esse não deve ser um objetivo, mas uma consequência, está nessa frustração de expectativas um dos maiores trunfos de Boi Neon, segunda ficção propriamente dita de Gabriel Mascaro. Propriamente dita porque seus documentários sempre circularam pela intersecção entre os dois gêneros, o que trouxe para seus roteiros ficconais uma naturalidade rara de se encontrar. A primeira grande negação de Mascaro é com o Nordestes idealizado. O filme nunca coloca seca, miséria ou a vida “pitoresca” do nordestino no centro da trama. Pelo contrário, isso praticamente não existe no filme, que se move em torno da personagem principal, um vaqueiro que sonha em ser costureiro, sem dar muita bola para as explicações ou os desdobramentos dessa situação. Iremar nunca tem a orientação sexual questionada. Por sinal, sua masculinidade é reforçada em vários momentos, seja na cena de sexo, seja na aliviada matinal, seja no banho coletivo. Mascaro examina o corpo de seu protagonista da mesma maneira que ele utiliza os corpos dos manequins que coleta para vestir suas criações. Juliano Cazarré está impecável: bruto e delicado ao mesmo tempo, com um sotaque pernambucano irrepreensível. Virou mesmo um grande ator. Ao seu lado, Maeve Jinkings interpreta uma caminhoneira sem trejeitos, discreta. O elo mais fraco do elenco é Vinícius Oliveira, que embora se esforce como o silencioso Junior raramente acerta no acento e fica apático durante a maior parte do filme. A quimíca entre o trio de atores profissionais com os dos vaqueiros que compõem o time principal de personagens é essencial para que Boi Neon funcione como um recorte de uma região que raramente consegue ser representada com tanto desprendimento.

Juventude Transviada

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[Rebel Without a Cause, Nicholas Ray, 1955]

O título original de Juventude Transviada, “Rebelde Sem Causa”, é injusto com seu protagonista. Jim Stark é um adolescente que não consegue dar conta de suas angústias tal como toda uma geração de jovens de meados dos anos 50, quando o pensamento americano começava a ensaiar uma grande transformação. Stark tinha não apenas uma, mas muitas causas para sua revolta: está no centro de uma família desestruturada; é o exemplo de uma juventude que busca respostas; é um garoto romântico demais para caber num mundo cada vez mais violento. Nicholas Ray captura esse incômodo tanto nas despropositadas lutas de faca e nos rachas perigosos quanto na agressividade com que Stark despeja contra sua família. Em James Dean, que aqui virou símbolo sexual, modelo de comportamento, espírito de um tipo de jovem americano, Ray encontrou a tradução mais fiel para este mundo em crise. O trabalho de restauração feito pela The Film Foundation ajudou a recuperar as cores e a intensidade do filme de Ray que ainda guarda uma outra performance espetacular. Como o tímido e furioso Plato, Sal Mineo entrega uma das interpretações mais comoventes do cinema, a de um adolescente “abandonado” pelos pais que encontra em Jim Stark, esperança, segurança e proteção. Dono de um desespero e de uma tristeza genuínos, é a personagem de Mineo que literalmente dá cabo ao filme, materializando toda aquela fúria contida.

Olmo e a Gaivota

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[Olmo e a Gaivota, Petra Costa & Lea Glob, 2015]

A câmera sempre está muito perto de Olivia e Serge. Eles são um casal de atores que trabalham juntos numa nova montagem do Théâtre du Soleil para A Gaivota, de Tchekhov. O filme registra os dois nos bastidores da peça e em casa, tanto quando descobrem que ela está grávida quanto quando contam a novidade para o resto do grupo, que decide afastar Olivia de uma turnê depois que ela sofre um sangramento. A câmera está lá também quando o casal discute porque Serge continua no projeto. E aí, então, entra uma voz que pede para que eles repitam a cena. Há alguns anos, Eduardo Coutinho investigou os limites da representação em Jogo de Cena, uma obra-prima sobre interpretação, encenação, verdade, mentira. Agora, Petra Costa invade o mesmo universo em Olmo e a Gaivota, um filme que navega entre o documentário e a ficção e entre o teatro e o cinema num fluxo invejável e com bastante humor. A virada do filme, o jogo de cena que revela a presença de alguém que pode estar interferindo no que o espectador viu até então, muda o pacto entre o que está na tela e quem está assistindo. Onde termina a realidade e começa a encenação? O fato de termos dois atores em cena e na berlinda confunde mais as coisas e deixa o enigma mais interessante. Petra Costa transita com muita naturalidade nos intervalos entre as possibilidades do filme, que deixa as decisões sabiamente para o espectador.

Ixcanul

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[Ixcanul, Jayro Bustamante, 2015]

Existe um certo conformismo dos países que não têm grande tradição cinematográfica com sua própria condição de exceção, como se o filme fosse uma anomalia que se justificasse unicamente por seu exotismo e suas particularidades étnicas. Jayro Bustamante gasta bastante tempo de seu filme situando o espectador, explicando a cultura que está mostrando para finalmente oferecer uma proposta além da pura antropologia, mas o diretor se diferencia pela maneira pouco usual com que constrói sua história, usando a câmera de forma inteligente e pensando em cada quadro. Ixcanul demora um pouco para acontecer e parece destinado a circular acerca das curiosidades dos remanescentes maias – é a língua falada no filme -, mas o longa consegue levar a história da menina que vai casar com um desconhecido aos pés do vulcão Ixcanul para um debate sociológico sobre a situação da Guatemala, a miséria e as condições de vida das populações indígenas e o tráfico humano. Tudo isso sempre com o foco nas personagens. Ponto para um país com uma história cinematográfica praticamente nula que encontrou a relevância olhando para dentro de si.

Para o Outro Lado

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[Kishibe no Tabi, Kiyoshi Kurosawa, 2015]

A relação da cultura japonesa com a morte é um universo à parte de possibilidades que dificilmente pode ser traduzido com fidelidade para quem tem um pensamento ocidental. Kiyoshi Kurosawa, que tem uma longa experiência com o fantástico, desta vez se aventura por um melodrama sobrenatural em que os mortos caminham entre nós. Mizuki é uma professora de piano tímida que recebe a visita do marido, desaparecido há três anos e que confessa estar morto. Juntos, os dois embarcam numa viagem em que irão visitar pessoas que passaram pela vida dele até que cheguem ao local onde os dois devem se despedir. Embora se passe todo no presente, Para o Outro Lado guarda semelhança com a animação As Memórias de Marnie, dos Estúdios Ghibli. Ambos passeiam pela relação entre vivos e mortos com delicadeza e naturalidade. Kurosawa adota um tom bem mais clássico do que seu habitual para explorar as histórias de fantasmas, perdas e arrependimentos que encontra pelo caminho. O contato da protagonista com as pessoas que abrigaram Yusuke ajuda a encontrar respostas para sua própria dor, sentimento que o diretor entrega aos poucos, explorando um cotidiano incrivelmente comum nas viagens do casal. Embora esse “romance espírita”, mal classificando, pareça bastante genuíno, faltou ao diretor uma assinatura mais forte, como em seu maior drama contemporâneo, o exemplar Sonata de Tóquio.

Comentários

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2 thoughts on “Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 4”

  1. Curiosamente assiti a Juventude Transviada ainda esses dias e me pareceu bem distante de algo interessante, na época com certeza foi corajoso em retratar uma adolescência sem voz, mas há personagens caricatos em demasia e suas motivações não fazem sentido, ao cabo de um deles perder o namorado num dia e no dia seguinte já diz estar amando outro que conheceu a dois dias, muito profundo.

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