Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 5

Um Dia Quente de Verão

Um Dia Quente de Verão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, Edward Yang, 1991]

Assistir a obra-prima de Edward Yang no cinema é uma das experiências máximas que um apaixonado por filme pode ter na vida. O diretor, que morreu prematuramente aos 50 anos, transformou a história real de um crime num mosaico maravilhoso da sociedade taiwanesa dos anos 60, uma sociedade formada por imigrantes da China continental que ainda procuravam seu lugar e sua identidade entre os nativos de uma ilha que ainda se dividia entre a democracia e o regime comunista. Como num daqueles quadros que ocupam paredes inteiras, Um Dia Quente de Verão emoldura não apenas a história de seu protagonista os movimentos de cada um a sua volta, numa rotina de observação que acompanha os passos do estudante Xiao Si’r e sua paixão pela colega de escola, Ming, que acontece em paralelo à violência das gangues os jovens taiwaneses buscavam, mesmo que sem muita consciência disso, segurança e liberdade de expressão, e ao envolvimento do pai em questões políticas. Os planos geralmente muito abertos tentam emoldurar tudo o que pode para traduzir um estado de tensão que cresce muito mais por causa da investigação silenciosa de Yang sobre a vida de Xiao Si’r e a situação do país do que necessariamente por causa de cenas nervosas, embora a sequência do massacre, realizada à meia-luz, seja assombrosa. Em meio a um punhado de personagens profundos, se destacam Gato, o menino cantor apaixonado por Elvis, que emociona em seus agudos de Are You Lonesome Tonight?, que empresta um verso para batizar o filme, e a própria Ming, um protótipo feminista que segue sua própria lógica e se move de acordo com o que quer e o que precisa.

Mate-me, Por Favor

Mate-me, Por Favor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mate-me, Por Favor, Anita Rocha da Silveira, 2015]

Não existe um adulto no mundo de Mate-me, Por Favor. Todos os atores em cena são adolescentes ou, quando muito, o irmão mais velho de uma adolescente. Em seu primeiro longa-metragem, Anita Rocha da Silveira realiza um impressionante mergulho nesse universo teen, realmente capturando a essência do jovem brasileiro, urbano, dos dias de hoje, objeto de estudo de diversos cineastas, mas pouquíssimos conseguem traduzi-los sem maniqueísmo. Os diálogos, os movimentos, os interesses, a confusão. Tudo parece muito genuíno no cinema de Anita, que mostra um excepcional talento para administrar espaços. Mate-me, Por Favor tem uma das fotografias mais instigantes do cinema brasileiro neste ano, cheio de fotografias instigantes. Consegue transformar o Rio de Janeiro, ou melhor, a Barra da Tijuca num ambiente de desolação, que funciona muito bem para estabelecer o suspense sensorial que parece ser um objetivo para a diretora, embora o crescimento urbano, que também parece estar no alvo, não fique tão bem inserido à trama assim. No entanto, Anita é uma ótima diretora de atores. Ou de atrizes. As quatro meninas são excelentes. O que incomoda um tanto é a transformação da protagonista. Os motivos estão ali, a percepção e a sedução da morte está ali, mas os simbolismos um tanto exagerados não funcionam com tão bem assim. A questão religiosa também é um problema porque o filme opera num naturalismo que se choca com o pastiche com que a diretora retrata a questão espiritual. Enfim, é preciso elaborar, mas a pura existência de uma mulher ensaiando um filme de terror, com tantos créditos, merece ser celebrada.

Autorretrato de uma Filha Obediente

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[Autoportretul unei Fete Cuminti, Ana Lungu, 2015]

Dos filmes romenos deste ano, Autorretrato de uma Filha Obediente pode não ser o melhor, mas é certamente o mais surpreendente (embora um western do leste europeu esteja na disputa). Surpreendente porque é dirigido por uma mulher, que entra num mundo bem fechado de Cornelius, Radus e Catalins, e oferece uma visão de mundo mais original e mais radical do que todos eles, e também por apresentar proposta diferente do que se espera do cinema romeno, onde geralmente se parte de um fato (um crime, uma proposta, um mistério) para se fazer uma observação do comportamento daquela sociedade. Ana Lungu concentra as coisas em sua protagonista, uma estudante que nunca vemos realmente estudar, que não trabalha, que sobrevive com a ajuda dos pais, mas se sente livre. Complexa e interessantíssima, sua história não segue um roteiro propriamente dito, mas uma sobreposição de cenas que não têm grande relação entre si, mas que aos poucos dizem para o espectador muito sobre quem é aquela mulher. Sua relação com o pai, um acumulador compulsivo de objetos culturais, renderia uma tese de doutorado, mas no filme rende os diálogos mais deliciosos, amorais e inteligentes diante da verborragia sarcástica do velho.

A Montanha Mágica

A Montanha Mágica EstrelinhaEstrelinha½
[La Montagne Magique, Anca Damian, 2015]

Apesar de incrível esforço para realizar um filme que alterna diversas técnicas de animação, A Montanha Mágica funcionaria bem melhor se fosse uma curta ou talvez um média-metragem. Pinturas, gravuras, colagens, sobreposições, rabiscos e outra infinidade de técnicas ajudam a compor a saga de uma vida do alpinista Adam Jacek Winker. A cineasta romena Anca Damian se apropria dessas diversas possibilidades para dar ritmo e agilidade a seu filme e a combinação de estilos funciona como motor durante um bom tempo. Durante seus 90 minutos, o filme mostra que o polonês, radicado em Paris, foi ativista político por toda a Europa, mas se desencantou com seu país depois que viu a aprovação popular do Partido Solidariedade. Terminou encontrando refúgio no Afeganistão, onde se transformou num combatente de campo no conflito do país com a União Soviética, assumindo o lado afegão. A trajetória do protagonista é impressionante, mas à medida que ele vira um guerrilheiro radical, o filme, que passou por três estúdios para ser concluído, vai ficando cada vez mais cansativo e menos interessante e a criatividade no uso das técnicas de animação vira perfumaria. A cena final recupera a atenção, mas não a empolgação inicial com o projeto.

Armadilha

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[Taklub, Brillante Mendoza, 2015]

Os letreiros iniciais revelam que o novo filme de Brillante Mendoza foi patrocinado por um ministério, por um órgão ligado à presidência e até por um senador filipino. A desconfiança logo se confirma quando Armadilha começa a revelar a vida de risco de quem mora nas regiões litorâneas do país, que são frequentemente alvo de tufões e furacões. Somos apresentados a uma série de personagens que tiveram as vidas afetadas por tragédias relacionadas a essas catástrofes naturais: uma mulher da qual só vemos um dos filhos; três irmãos que perderam os pais; um homem que carrega literalmente uma cruz. Embora Mendoza tenha algum talento na composição de algumas cenas (outras são puras peças publicitárias), o sentimento que o filme desperta é de que todo o projeto é um filme de propaganda que serve como alerta para que as pessoas evitem áreas de risco, mesmo que em alguns momentos, Mendoza queira demonstrar independência, criticando a burocracia governamental. Faz um bom tempo desde que o filipino não faz um filme minimamente interessante. A boa forma não voltou com Armadilha.

Comentários

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4 thoughts on “Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 5”

  1. Brighter Summer Day é realmente um monumento, grande obra-prima do Yang, e quiça da década de 90. Uma infelicidade eu não poder ter assistido na mostra, espero que esta restauração da Film Fundation que esta sendo exibida
    também na Itália e diversos outros países reacenda o interesse na obra do diretor, uma edição em BD da Criterion é mais do que indispensável, é essencial para a fundação da arte cinematográfica.

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