Mulher-Maravilha

Mulher-Maravilha O Superman de Richard Donner prometia: “Você vai acreditar que um homem pode voar”. Era a marca, o conceito e a pretensão do filme. Naquela época, as coisas eram bem mais simples. O namoro entre as histórias em quadrinhos e o cinema dava seus primeiros passos e estabelecer universos estendidos era um sonho que só seria sonhado num futuro ainda distante. O filme de super-herói ainda não existia, o que liberava os criadores de alguns compromissos. Diretor, roteiristas e mesmo os homens do dinheiro estavam mais interessados em traduzir uma ideia, compreender sua essência, explicar suas motivações. Sobrava espaço para trazer à tona um herói clássico, um personagem talvez ingênuo, mas fiel a princípios fora de moda como altruísmo, nobreza e até amor ao próximo. Muito tempo se passou desde então e, no Olimpo dos superfilmes, o parente mais próximo do longa de Donner é Mulher-Maravilha de Patty Jenkins.

Mas, ao contrário da aventura que nos fez acreditar que homem pode voar, o primeiro filme solo de uma super-heroína das HQs chegou, quase 40 anos depois, cheio de obrigações: fazer dinheiro, levar em frente uma franquia, conquistar os fãs e, principalmente, absorver e refletir o momento de batalha das mulheres por mais representatividade no cinema, sobretudo quando sua personagem principal é um dos maiores ícones feministas da cultura pop. Nessa guerra com tantos fronts, a diretora foi bastante feliz ao repetir o motor e o mecanismo do filme de Donner: ser fiel à essência da personagem, preservando a pureza de suas inspirações, investindo no que lhe é mais básico e mais central. Num mundo que parece buscar virtudes fundamentais em seus líderes e, por vezes acaba tropeçando, a Mulher-Maravilha pode parecer old school, mas faz muito sentido.

A defesa desse “espírito” da personagem foi uma decisão bastante arriscada da Warner, que corria o risco de afastar o público jovem, acostumado a personagens menos preto no branco, mas pareceu um motivo perfeito para que as mulheres se sintam representadas no longa. Embora use muita força bruta e tenha um modus operandi semelhantes ao de heróis do sexo frágil, o instinto que move a amazona é essencialmente feminino. A verbalização destas motivações pela protagonista nos momentos mais cruciais de cenas de batalha marombadas parece afirmar isto, como se Jenkins quisesse deixar claro que, mesmo no meio de sequências de ação ainda feita nos moldes e com as cores dos filmes de Zack Snyder, que produz e ajudou a escrever o longa, quem assina este filme é ela — e sua heroína é durona, mas acima de tudo é uma mulher. E que mulher!

Gal GadotGal Gadot é um caso interessante que vai muito além de sua absurda beleza. Sem ser uma grande atriz, ela parece estar completamente em comunhão com as pretensões de Patty Jenkins e compõe a protagonista com uma graça rara, o que a aproxima muito do Christopher Reeve faz com seu Clark Kent no primeiro Superman. Quando chega ao “mundo dos homens”, a Mulher-Maravilha da dupla não é aquela clássica personagem “perdida no tempo”. Está mais para uma estranha curiosa, que guarda reações espontâneas em relação ao que não conhece. A química entre a atriz e seu comparsa em cena, Chris Pine, é perfeita tanto para criar o alívio cômico que os filmes da DC precisam – e este tem de sobra -, quanto para costurar um romance nos moldes de longas hollywoodianos clássicos, com cenas bem escritas, bem interpretadas e bem dirigidas, como a da despedida.

Como Christopher Reeve, Gadot é fundamental para que a pureza da personagem permaneça intacta e para que o espectador tenha a chance de reconhecer que aquilo é sua natureza e não uma caricatura ingênua em tempos de personagens complexos. Jenkins, por sinal, parece nem ligar para buscar outras camadas da heroína. Sua Mulher-Maravilha é muito simples e direta. É a personagem que toma a responsabilidade para si, que assume o fardo. A ideia de situar o filme durante a Primeira Guerra Mundial é uma maneira bem eficaz de apresentar conceitos, digamos, tão “antiquados” e abre espaços para personagens mais estereotipados como a Doutora Veneno, interpretada de maneira deliciosamente caricata por Elena Anaya.

Embora siga a embalagem plástica determinada por Snyder, que é o consultor criativo da DC Comics para o universo estendido do cinema, Mulher-Maravilha tem muitos acertos em sua composição visual, como a escolha por retratar Themyscira como uma cidade incrustrada numa ilha tipicamente grega, com longos paredões brancos e uma arquitetura clássica, à excessão do local onde Steve Trevor é interrogado. Na direção de arte e nos figurinos estão as únicas mulheres da equipe de Jenkins. A ilha é palco de vários belos momentos do filme, como a sequência que começa com Diana se atirando ao mar e termina com a batalha na praia, e é onde surgem duas personagens importantes: a rainha Hipólita, de Connie Nielsen, e sua irmã, a general Antíope, de Robin Wright, que surpreende nas cenas de ação. As duas levam muito a sério suas interpretações, dando estofo para a primeira parte do filme.

Mulher-MaravilhaA longa duração, 2h26, é um dos pontos fracos de Mulher-Maravilha, mas a Warner ainda parece entender que os longas da DC precisam ser importantes e isso passa por serem grandes. O duelo final contra o Deus da Guerra também deixou a desejar porque se parece demais com os outros filmes da franquia, tanto na mão pesada, na falta de sutileza para com os soldados no desfecho, quanto plasticamente (a não ser pelo laço mágico!). É onde parece ter mais Snyder do que Jenkins, embora ela pareça se esforçar para mostrar sua assinatura aqui e ali. Na tela, entre altos e baixos, o filme é um acerto, mas para esse acerto ser sólido e gerar frutos, precisa ganhar uma última batalha, a das bilheterias. Se for um sucesso, ganha a DC, ganham as mulheres, ganham os puros de coração.

Mulher-Maravilha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Wonder Woman, Patty Jenkins, 2017]

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