Mutum

Mutum é sobre dois Thiagos. Um deles tem dez anos e mora com sua família no interior de Minas Gerais. Um lugar tão seco quanto o sertão nordestino. Pobre, vive numa casa isolada, longe de cidades e escolas. Seu principal compromisso é brincar com o único amigo que tem, seu irmãozinho, Felipe. Uma rotina que o leva a um universo particular, onde pipocas viram brinquedo.

Este Thiago, no entanto, é um menino crescendo. Certo dia, seu tio o leva para um povoado distante para ser crismado. E é a partir daí que ele começa a enxergar o tamanho do mundo. Quando volta para casa, Thiago já tem outra visão do espaço que ocupa e percebe o perigo que está ao seu lado. É obrigado a ajudar o pai no campo, descobre a violência dentro de casa e tem que lidar com despedidas.

No original, Thiago se chama Miguilim. Ele é o protagonista da história que leva seu nome em Campo Geral, livro de Guimarães Rosa. O autor de difícil adaptação ganhou tradução peculiar nas mãos de Sandra Kogut. Mutum, o filme, herdou o nome do pedaço de terra onde vive o menino. No longa, estréia da diretora em filmes de ficção, Miguilim mudou de nome por causa de um segundo Thiago, o ator da história.

Thiago da Silva Mariz é um achado. Um pequeno líder de um elenco quase totalmente amador é capaz de um feito enorme. É a ele que Kogut entregou a tarefa de unir dois pontos distantes da obra de Guimarães Rosa: de um lado, a aridez da vida no campo com seus diálogos ríspidos e rudes; do outro, a delicadeza do olhar da criança, puro e apaixonado, cheio da emoção mais inocente, ávido por descobertas.

Mas, apesar da força da performance de Thiago, o que faz Mutum realmente funcionar é o quanto seus realizadores estão sintonizados com um cinema humanista feito hoje em dia. O emocional ganhou reflexo na bela fotografia, onde a câmera está sempre em busca de um rosto, de um olhar, de uma expressão. Enquanto o clima árido se abrigou na montagem, com cortes brutos, secos, impiedosos.

A maior qualidade de Mutum é ser um cinema duro na forma como traduz a brutalidade da transformação e, ao mesmo tempo, sabe ser extremamente delicado com seu protagonista e com seu espectador.

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[Mutum, Sandra Kogut, 2007]

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