Sam Riley, Kirsten Dunst, Krisetn Dunst, Garrett Hedlund, Krisetn Stewart, Viggo Mortensen

A culpa pelo resultado morno e pouco interessante de Na Estrada talvez nem seja da formalidade de Walter Salles. As qualidades do livro de Jack Kerouac estavam muito mais em seu poder de representar uma geração do que no valor de seu texto. “On the Road” foi o livro que traduziu o jovem americano da virada da primeira metade do século vinte e virou símbolo de seus ideais libertários, que passavam diretamente por sexo e drogas e arte.

Setenta anos depois, a herança dos beatniks não está numa linha ou numa corrente, mas costurada a nossa cultura, ao nosso imaginário. Qualquer adaptação do livro de Kerouac já sofreria pela falta do impacto transformador do original. Nas mãos de Walter Salles, isso se acentua, mas não porque o diretor não tenha se esforçado. O máximo de “revolução” que o brasileiro consegue nos oferecer é justamente o que se vê na tela em Na Estrada.

Para os padrões de Salles, o filme é bastante ousado, com drogas e sexo protagonizando várias cenas. Mas não há como se transformar um perfil da noite pro dia e, mesmo quando tenta ousar, o diretor exala sua formação conservadora. Para uma história “suja”, com personagens na condição de espíritos livres, soltos pelo mundo, o filme é estilizado demais. E esse verniz dá um peso que torna o longa reverente à obra e cansativo.

O elenco é uniforme, mas não existem grandes méritos particulares. Garrett Hedlund é o melhor em cena, conseguindo traduzir o encantamento que seu Dean Moriarty provoca em todos que cruzam seu caminho, mas, na cena final, quando o personagem pede um comportamento diferente, o ator não sabe como dar conta da mudança de tom. Sam Riley é um protagonista generoso, já que passa o comando das cenas para qualquer um que contracene com ele. Kristen Stewart está bem.

Incomoda bastante o desperdício de bons atores em papéis menores. As escalações parecem ter muito mais a função de chamar atenção pro filme do que qualquer outra coisa. Viggo Mortensen e, sobretudo, Amy Adams, na caracterização mais grosseira do longa, são os que mais sofrem. Seus personagens, que deveriam ter uma função oracular para os protagonistas, são retratados com malucos imundos. Steve Buscemi surge numa seqüência curtinha que aparentemente deveria demonstrar o ápice da ousadia de Salles. Até porque se a produção fosse americana – os créditos finais deixam bem claro que só França e Brasil respondem pelo filme – a cena seria, pelo menos, suavizada.

Salles tenta, mas a verdade é que nenhum aspecto do filme funciona plenamente. A fotografia tem seus momentos de beleza na composição, mas no geral se mantém numa zona de conforto que se estende por todo o longa. Quando tenta fugir do lugar comum, vem aquela cena da dança no bordel mexicano, filmada com uma câmera frenética como se os personagens participassem de uma sessão num terreiro de candomblé. A trilha cumpre seu papel, mas nunca empolga realmente.

Na Estrada sofre de um misto de reverência e falta de intimidade com o material. O filme pedia um diretor mais porra louca para comandar essa história de libertação. E não alguém cujo maior atrevimento foi justamente ter escolhido este livro para adaptar.

Na Estrada EstrelinhaEstrelinha½
[On the Road, Walter Salles, 2012]

Comentários

comentários

5 thoughts on “Na Estrada”

  1. Eu não poderia concordar mais contigo nessa, Chicó. Achei o filme forçado, protocolar, coxinha. Os personagens (do livro, da vida) e a filosofia me interessam, a história tem lá suas cores, mas a representação disso tudo no cinema foi por demais sem viço. Uma pena.

  2. Engraçado, não senti isso. Exposto dessa forma, até concordo com o que diz. Mas achei o filme demais fiel ao livro. O processo do roteiro e filme, segundo as entrevistas com Salles, foi bastante obsessivo da parte dele, sempre buscando compreender a alma, espírito dessa geração, e tentando manter-se bastante fiel ao livro tanto em conteúdo, tanto enquanto forma.
    Mas como este livro é muito cultuado, parece proibido desgostar dele. Então melhor para por aqui.

    bjs

    1. Marina, entendo o que o Salles disse e acredito que a intenção dele tenha sido essa mesmo. Mas o que eu duvido é da capacidade que ele tem pra traduzir uma obra deste perfil, que por sinal eu nem gosto tanto assim.

  3. Li o livro e assisti o filme só agora e posso dizer que como filme este é bem desinteressante msm, os personagens não cativam e nunca sabemos aonde o filme quer chegar. Como adaptação eu sou contra essas tentativas, tanto este livro como “O apanhador no campo de centeio” não são regidos por uma linha coerente de história mas sim por uma linha tênue onde os acontecimentos são pretextos para uma visão filosófica de uma época, então traduzir isso em película é mto, mto difícil…+ um ponto negativo pro Waltinho que tá devendo um filme realmente bom.

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